A Bolsa brasileira registrou um encolhimento de R$ 787 bilhões desde meados de abril, fazendo o Ibovespa recuar dos próximos 200 mil pontos, alcançados em 14 de abril, para abaixo de 170 mil pontos no início de junho. Esse movimento levanta questionamentos sobre os próximos passos do índice, mas analistas e estrategistas de mercado mantêm uma visão construtiva para o Brasil e para a América Latina.
Bradesco BBI vê oportunidade na América Latina
Para os estrategistas do Bradesco BBI, a recente perda de fôlego das bolsas latino-americanas não altera o potencial da região e pode, na verdade, abrir uma janela de oportunidade para investidores. Após devolver todo o ganho relativo acumulado no início de 2026, a América Latina passou a negociar com desconto relevante, em meio a uma deterioração rápida de fluxo e sentimento – movimento que o banco classifica como excessivo.
A reversão foi motivada principalmente pela rotação global de capital para ações de tecnologia, especialmente nos Estados Unidos e na Ásia, além de ruídos locais, como incertezas eleitorais no Brasil, discussões em torno do acordo comercial USMCA no México e o avanço de reformas no Chile. Na avaliação do BBI, porém, esse conjunto de fatores tem caráter mais tático do que estrutural, o que sustenta uma visão construtiva — e até contrária — para os ativos latino-americanos nos níveis atuais.
Brasil é a principal aposta do banco
Dentro da região, o Brasil aparece como a principal aposta do banco. A recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) é baseada na combinação de valuations descontados, mudança de fluxo doméstico e percepção de que os principais vetores macro locais estão mal precificados.
Para os estrategistas, o sentimento dos investidores com relação ao mercado brasileiro se deteriorou de forma abrupta, saindo de níveis elevados para patamares considerados pessimistas — historicamente associados a pontos de entrada atrativos. Esse movimento vem acompanhado por múltiplos deprimidos. Segundo o BBI, a Bolsa brasileira negocia cerca de um desvio-padrão abaixo da média histórica, posicionando-se como um dos mercados mais baratos entre os principais índices globais.
Além do valuation, o banco chama atenção para uma mudança relevante na dinâmica de fluxo: investidores institucionais locais voltaram a comprar ações de forma expressiva, no maior volume em mais de cinco anos, compensando parcialmente a recente saída de capital estrangeiro.
Juros e eleições mal precificados
Outro pilar da visão positiva para o Brasil está na leitura de que os principais ciclos domésticos — juros e eleições — estão sendo precificados de forma distorcida. De um lado, a curva de juros embute um cenário mais restritivo do que o esperado pelo BBI, mesmo diante de fatores como câmbio relativamente estável e nível elevado de juros reais. De outro, o risco eleitoral, embora elevado, já estaria amplamente incorporado aos preços. Na prática, isso cria uma assimetria favorável: qualquer melhora marginal nesses vetores pode desencadear uma reprecificação positiva dos ativos.
Tecnologia e a característica 'anti-tech' da América Latina
No plano global, o banco destaca o papel do setor de tecnologia na recente mudança de fluxos. O forte desempenho das big techs concentrou capital e aumentou a correlação entre mercados, reduzindo o apetite por regiões com menor exposição ao setor. Nesse contexto, a América Latina se destaca por sua característica “anti-tech” — com peso praticamente irrelevante em tecnologia nos índices, inferior a 0,5%.
Segundo o BBI, isso cria um cenário potencialmente favorável em dois sentidos: se o rali de tecnologia perder força, a região tende a se beneficiar de uma rotação para ativos de valor; se continuar, pode funcionar como diversificação em portfólios cada vez mais concentrados.
Desafios globais e cenário defensivo
Apesar da visão construtiva, o relatório reconhece que o ambiente global segue desafiador, com alta de juros nos países desenvolvidos, inflação pressionada e tensões geopolíticas — incluindo impactos da guerra envolvendo o Irã sobre preços de energia. Ainda assim, o BBI avalia que a América Latina apresenta características defensivas nesse cenário, como valuations já descontados, juros reais elevados e exposição positiva a commodities, especialmente petróleo. Além disso, o comportamento recente do dólar — que não se fortaleceu de forma consistente mesmo com um pano de fundo favorável — pode reduzir uma importante fonte de pressão sobre mercados emergentes.
XP Investimentos e JPMorgan também analisam
Olhando para o segundo semestre, a XP Investimentos aponta que o comportamento das ações brasileiras deve passar por uma mudança importante, com eleições e juros sendo os grandes direcionadores do mercado, ante visão de que o primeiro semestre foi direcionado principalmente pelo setor externo. Sobre o ciclo eleitoral brasileiro, ele tende historicamente a aumentar a volatilidade nos ativos domésticos à medida que a votação se aproxima. Já o comportamento de inflação e juros, segundo a XP, tende a se tornar menos favorável aos ativos de risco. Essa mudança tem implicações importantes para a performance das ações. Historicamente, ambientes de inflação em alta combinada com juros em alta são negativos para a bolsa brasileira, com retornos reais médios anuais de cerca de -17,5%.
Apesar do cenário mais desafiador no curto prazo, a casa vê elementos de suporte para a bolsa. A XP segue com projeção do Ibovespa a 205 mil pontos ao fim do ano, uma alta de 21% em relação ao fechamento de sexta-feira (5).
Para o JPMorgan, a eleição de outubro já é uma importante fonte de volatilidade. Historicamente, o Brasil tem um desempenho inferior nos seis meses que antecedem uma eleição (em abril e maio, o MSCI Brasil já caiu 6,5% em termos absolutos). Enquanto isso, no mercado interno, as taxas de juros podem não cair tão rapidamente quanto o esperado atualmente (a previsão do JPMorgan é de uma Selic a 13,25% ao fim de 2026) e devem ser um impedimento para a recuperação dos setores domésticos no médio prazo.
Olhando para o valuation, o MSCI Brasil está sendo negociado a 7,8 vezes o múltiplo de preço sobre lucro (P/L) projetado para 12 meses, após ter sido negociado acima da média (10,5x) em janeiro e fevereiro. De forma micro, oito dos dez setores estão sendo negociados abaixo de suas médias históricas. Os mais baratos são os de energia, saúde e bens de consumo discricionários, enquanto apenas o setor de serviços públicos está sendo negociado com prêmio. O setor de materiais básicos está em linha com o mercado.



