As ações da América Latina podem voltar a superar outros mercados no segundo semestre de 2026, após uma primeira metade do ano marcada por forte volatilidade e deterioração do sentimento dos investidores. É o que aponta relatório do Bradesco BBI, que vê uma “segunda oportunidade” para a região diante de valuations deprimidos e expectativas já bastante negativas.
Segundo o banco, a correção recente — impulsionada pela rotação global para tecnologia e por preocupações com juros e ciclos eleitorais domésticos — levou os mercados latino-americanos a negociarem entre os mais baratos do mundo, tanto em termos absolutos quanto históricos. Ao mesmo tempo, o fluxo de recursos e o sentimento de investidores atingiram níveis considerados “contrários positivos”, abrindo espaço para recuperação caso o cenário macro surpreenda positivamente.
Brasil lidera preferência
Dentro da região, o Brasil é o principal destaque do BBI, com recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) e potencial de valorização considerado assimétrico. O banco estima até 30% de alta para o mercado brasileiro, sustentada por três vetores principais: o ciclo de juros local, o cenário eleitoral e as expectativas para política monetária nos Estados Unidos.
“O Brasil reúne hoje riscos elevados, mas também prêmios mais atrativos, com preços que parecem ter exagerado o pessimismo”, aponta o relatório. A estratégia do BBI inclui aumento de exposição a nomes domésticos e mais defensivos, com destaque para Itaú (ITUB4), além de Equatorial (EQTL3), Rede D’Or (RDOR3) e Lojas Renner (LREN3). Por outro lado, o banco retirou Petrobras (PETR4) de sua carteira. A instituição também mantém preferência por empresas mais sensíveis à queda de juros, ações ligadas ao mercado de capitais e estatais.
Chile aparece como melhor risco-retorno
O Chile é apontado como o mercado com melhor relação risco-retorno da América Latina, com potencial de valorização estimado em 23%. O BBI destaca a expectativa de avanço de “mega reformas” econômicas no segundo semestre e a possibilidade de queda no preço do petróleo como fatores positivos para o país. Além disso, o banco vê espaço para valorização cambial e melhora dos resultados corporativos. Na carteira chilena, houve troca de Banco de Chile por Santander Chile, além da inclusão de nomes ligados ao cobre, como a Capstone Copper.
México, Peru, Argentina e Colômbia
Para o México, o BBI mantém recomendação neutra, citando valuations já elevados e recuperação econômica ainda lenta. Ainda assim, o banco vê excesso de pessimismo nas expectativas para o acordo comercial USMCA e adiciona exposição cíclica por meio da Ternium. No Peru, houve elevação da recomendação para neutra, com base na possibilidade de melhora do ambiente político e retomada dos investimentos, especialmente diante de um cenário eleitoral mais estável. O principal destaque é Credicorp, vista como uma das preferidas na região, embora riscos climáticos – como o El Niño – permaneçam no radar.
Já a Argentina foi rebaixada para underweight (exposição abaixo da média, equivalente à venda) após forte alta recente. Segundo o BBI, o país ainda depende de uma recuperação econômica mais consistente para justificar novas valorizações, enquanto enfrenta riscos relacionados ao preço do petróleo e ao cenário político. A Colômbia também segue com recomendação underweight, diante de limitações fiscais e desafios para implementação de reformas.
Preferência por “quality growth”
Entre as principais ações recomendadas para o segundo semestre, o BBI destaca uma mudança de foco em direção a empresas de “crescimento de qualidade”, em meio ao ambiente macro mais incerto. Entre as grandes empresas, as novas apostas incluem Itaú (ITUB4), Coca-Cola FEMSA (KOF), Embraer (EMBJ3), Equatorial (EQTL3) e Yduqs (YDUQ3). Já entre small e mid caps, aparecem XP (XPBR31), Ternium (TX) e Smart Fit (SMFT3). O banco também vê oportunidades em ações que sofreram forte desvalorização recente, como Embraer e Smart Fit, além de casos com potencial de surpresa positiva de crescimento, como KOF e Ternium.
Na visão do BBI, o pano de fundo global pode voltar a favorecer a América Latina nos próximos meses. Entre os fatores destacados estão a possibilidade de queda nos preços do petróleo, desaceleração da rotação para tecnologia e um dólar mais fraco. “Os riscos seguem elevados, mas o ponto de entrada está mais atrativo e sensível a notícias ‘menos negativas’”, aponta o banco, reforçando a visão de que o segundo semestre pode marcar uma reprecificação dos ativos da região.



