O acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã, que esfriou as tensões no Oriente Médio e pressionou os preços do petróleo, gerou uma reação imediata nos mercados já na segunda-feira (15) — com queda das ações de petroleiras como Petrobras (PETR4) e recuperação pontual de papéis ligados ao consumo doméstico. Apesar desse movimento inicial, analistas avaliam que ainda não há evidências de uma rotação estrutural de investimentos do setor de energia para o varejo no Brasil.
Mercado reage com volatilidade
Na segunda-feira (16), o Ibovespa chegou a subir quase 2% pela manhã, refletindo o aumento do apetite global por risco após o anúncio do acordo. O avanço, no entanto, perdeu força ao longo do dia, com o índice fechando em queda de 0,42%, pressionado principalmente pelo tombo das ações da Petrobras (PETR4), que recuaram mais de 5% no intraday, acompanhando a queda de quase 5% do Brent. No dia seguinte, o petróleo voltou a cair cerca de 3%, mantendo o viés negativo para o setor.
Cenário macro ainda adverso para consumo
Embora o movimento tenha favorecido, no curto prazo, ações mais sensíveis ao ciclo doméstico, o pano de fundo macroeconômico segue adverso para uma rotação consistente. Dados recentes já apontam desaceleração da atividade: as vendas do varejo recuaram 1,5% em abril ante março, enquanto o mercado segue à espera das decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos.
Nesse contexto, a perspectiva de juros ainda elevados continua sendo um dos principais entraves para o consumo. Mesmo com a expectativa de cortes graduais da Selic — projetada para 14,25% ao ano após a “Superquarta” — o nível segue restritivo, limitando a expansão do crédito e pressionando o orçamento das famílias.
Incertezas fiscais e eleitorais mantêm cautela
Além disso, a incerteza fiscal e eleitoral segue no radar dos investidores, o que contribui para manter uma postura mais defensiva. De acordo com levantamento do Bank of America (BofA), os níveis de caixa dos investidores permanecem acima da média histórica e 58% dos gestores reportam menor disposição a risco, com preferência por empresas de alta qualidade e pagadoras de dividendos — perfil mais associado a setores como energia e utilities do que ao consumo discricionário.
“Hoje nós temos visto as alocações muito mais voltadas para ativos de segurança”, afirma Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos. Segundo ele, ao longo do período recente houve forte direcionamento de recursos para setores resilientes, como energia, saneamento e consumo não cíclico, além de títulos públicos e metais preciosos.
Fluxo para emergentes deve começar por blue chips
Na avaliação de Coelho, o alívio geopolítico pode, de fato, estimular uma retomada gradual do apetite por risco e gerar fluxo para mercados emergentes, incluindo o Brasil. Esse movimento, porém, tende a começar pelas ações de maior liquidez e peso no índice, como Petrobras (PETR4), Vale (VALE3) e grandes bancos — e não necessariamente pelo varejo. “Primeiro entra nas empresas grandes, que têm maior representatividade no Ibovespa. Só depois há uma segunda derivada em direção a small caps e setores mais domésticos”, explica.
Seletividade no varejo
Mesmo dentro do consumo, a estratégia segue bastante seletiva, conforme destacam analistas do Santander em relatório. Investidores têm evitado uma aposta ampla no setor, priorizando nomes específicos com crescimento estrutural e maior previsibilidade de resultados, como redes de farmácias e companhias com capacidade de expansão de margens. Ao mesmo tempo, fatores como o endividamento das famílias, a concorrência por renda — incluindo apostas online — e o ambiente macro incerto continuam limitando o potencial de recuperação mais robusta.
O varejo farmacêutico segue como uma das principais formas de exposição ao consumo brasileiro, aponta o Santander, com destaque para RD Saúde (RADL3) e Pague Menos (PGMN3). O avanço dos medicamentos GLP-1 é visto como um importante vetor estrutural para o setor farmacêutico, impulsionando demanda e fluxo de clientes. Enquanto isso, a Lojas Renner (LREN3) voltou ao radar dos investidores como uma empresa de qualidade, embora o mercado ainda aguarde sinais mais claros de aceleração dos lucros.
Petroleiras ainda atraentes no médio prazo
Outro ponto que reduz a probabilidade de uma rotação mais clara é que, mesmo com a queda recente do petróleo, as petroleiras ainda são vistas como atrativas no médio prazo. O setor segue beneficiado por forte geração de caixa, distribuição de dividendos e valuations descontados, o que sustenta seu apelo em portfólios mais defensivos. O JPMorgan, em relatório recente, manteve recomendação equivalente à compra para os ativos da Petrobras.



