A temporada de resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26) começa a ganhar tração, com expectativas de desempenhos mistos no setor varejista. De acordo com o Banco Safra, o ambiente macroeconômico desafiador, aliado ao elevado endividamento das famílias e à competição crescente, continua pressionando a demanda e aumentando a volatilidade operacional das companhias. Empresas com maior capacidade de preservar margens e eficiência operacional tendem a se destacar, enquanto as mais expostas à desaceleração do consumo devem enfrentar pressão adicional sobre a rentabilidade.
Destaques positivos projetados pelo mercado
Na avaliação do Itaú BBA, a Smart Fit (SMFT3) deve apresentar resultados fortes, com possíveis revisões para cima nas estimativas, impulsionada pelo TotalPass, beneficiado pela sazonalidade — com menos transferências para academias terceirizadas durante férias e Copa do Mundo —, o que compensa a pressão nas academias próprias maduras no Brasil.
As redes de farmácias RD Saúde (RADL3) e Panvel (PNVL3) também devem registrar bom crescimento de receita. Para Panvel, não se espera desaceleração no segundo trimestre, já que a demanda por medicamentos GLP-1 continua forte. No caso de RD Saúde, a expectativa é de desaceleração mais leve que a do mercado e ganho de participação de mercado por mais um trimestre.
O Grupo SBF (SBFG3), dono da Centauro e detentor dos direitos da Nike no Brasil via Fisia, deve ter seu melhor segundo trimestre em anos, auxiliado pela Copa do Mundo e melhora de margem na Fisia.
O Banco Safra aponta a Track & Field (TFCO4) como destaque, com crescimento sólido de vendas. No entanto, o avanço mais acelerado do canal de atacado pode gerar leve pressão sobre as margens, já que esse segmento possui rentabilidade estruturalmente inferior ao varejo próprio.
A Alpargatas (ALPA4) deve manter a recuperação operacional gradual iniciada nos últimos trimestres. O Safra projeta crescimento de 6% na receita, impulsionado pelo aumento do ticket médio no Brasil e pela melhora das operações internacionais. Ganhos recentes de eficiência devem continuar favorecendo a rentabilidade.
Destaques negativos: Natura e Grupo Mateus sob pressão
O Itaú BBA vê um cenário mais desafiador para Natura (NATU3) e Grupo Mateus (GMAT3), empresas com maior exposição ao Nordeste, região que vem apresentando desempenho inferior ao restante do país. Segundo o banco, isso reflete fatores como o possível aumento do comprometimento da renda das famílias com apostas e a redução dos estímulos fiscais após ajustes no Bolsa Família.
No caso da Natura, a operação brasileira — principal geradora de valor — deve registrar queda de cerca de 14% na comparação anual, sem grande visibilidade de recuperação no curto prazo.
O Grupo Mateus continua enfrentando consumo mais fraco e vendas em mesmas lojas (SSS) negativas em termos nominais, pressionando a rentabilidade. Ainda assim, o BBA destaca que melhorias operacionais devem começar a aparecer nos resultados do segundo trimestre.
Para a Vivara (VIVA3), o banco avalia que o crescimento da receita deve ser compensado pela pressão sobre a margem bruta e pelo aumento das despesas comerciais, mantendo o Ebitda praticamente estável na comparação anual. O desempenho também é impactado por uma base de comparação mais forte em 2025.
A Azzas (AZZA3) deve reportar mais um trimestre pressionado por dificuldades em diferentes unidades de negócio, na avaliação do Banco Safra. A fraqueza das divisões de calçados, acessórios e vestuário feminino deve continuar afetando os resultados.
O BTG Pactual reforçou sua visão cautelosa para empresas do varejo alimentar, como Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus, especialmente diante do espaço limitado para repassar preços sem pressionar a demanda. “O setor não está em colapso, mas a qualidade do crescimento continua fraca: as unidades permanecem negativas e o volume físico está praticamente estável no acumulado do ano”, comenta o banco.
Vestuário ainda positivo, apesar de base elevada
Os analistas Rodrigo Gastim, Victor Rogatis e Vinicius Pretto, do Itaú BBA, avaliam que o setor de vestuário deve apresentar um segundo trimestre sólido, apesar da elevada base de comparação do mesmo período de 2025. Após um 2T25 bastante forte, o mercado esperava queda nas vendas em mesmas lojas (SSS) em 2026, mas o cenário se mostrou mais favorável. As empresas do segmento devem reportar crescimento positivo nas vendas, ainda que em ritmo ligeiramente menor que o observado no primeiro trimestre.
O desempenho continua positivo em termos absolutos, embora as expectativas tenham se tornado mais elevadas após um maio forte. O entusiasmo diminuiu depois de um junho mais fraco, reduzindo as chances de surpresas positivas relevantes. Ainda assim, o BBA não vê sinais claros de revisões negativas para as estimativas do setor e mantém visão construtiva para as três principais empresas de vestuário acompanhadas.
Entre elas, a C&A (CEAB3) segue como principal destaque, devido ao desconto relevante em relação às concorrentes Lojas Renner (LREN3) e Riachuelo (RIAA3). Para o Safra, Lojas Renner e Riachuelo devem continuar apresentando crescimento resiliente das vendas, enquanto a C&A tende a enfrentar desempenho mais moderado, relacionado à normalização da categoria de beleza após mudanças recentes no portfólio.



