As taxas das Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e Imobiliário (LCI) fecharam o primeiro semestre de 2026 abaixo dos níveis de 2025, conforme levantamento da Quantum Finance, empresa de tecnologia de inteligência e análise de investimentos, a pedido do InfoMoney. O recuo ocorre em um semestre em que o mercado voltou a olhar com mais atenção para o risco de o benefício da isenção de imposto de renda acabar.
Remunerações mais baixas, mas vantagem líquida persiste
Mesmo com remunerações mais moderadas, a isenção continua garantindo aos dois títulos um retorno líquido que supera boa parte das opções tributadas, a depender do prazo. A LCA de um ano rendeu, em média, 88% do CDI no primeiro semestre, ante média de 95% registrada em todo o ano passado. Esse retorno equivale ao de um CDB que pagasse 106% do CDI, já descontado o imposto de 17,5%.
A queda acompanha o recuo da curva de juros ao longo do ano, explica Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Asset. “Apesar de ainda termos uma curva de juros bastante pressionada, tanto nominal quanto real, se compararmos com 2024 ou meados de 2025, o mercado está menos pessimista”, afirma. No semestre, as remunerações se concentraram mais perto de 90% do CDI, com menor dispersão entre máximas e mínimas e entre prazos. Para Almeida, o comportamento reflete as mudanças regulatórias que fixaram prazos mínimos e os eventos de crédito do ano, que impuseram mais disciplina ao mercado.
Comparação entre LCAs e LCIs
Na LCA, as taxas médias de 2026 para 6 meses foram de 87,45% do CDI (ante 90,05% em 2025); para 1 ano, 88,08% (ante 95,00%); para 2 anos, 88,66% (ante 92,11%); e para 3 anos, 89,59% (ante 95,50%). Já na LCI, as taxas médias de 2026 para 12 meses foram de 89,50% do CDI (ante 95,43% em 2025); para 24 meses, 92,50% (ante 94,74%); e para 36 meses, 90,14% (ante 94,92%). Os dados são da Quantum Finance.
É na comparação com os papéis tributados que a vantagem aparece. Além da LCA de um ano equivalente a um CDB de 105% do CDI, o papel de seis meses, com taxa de 85,75% do CDI, corresponde a um CDB de cerca de 110% do CDI, considerando o imposto de 22,5% que incidiria sobre o papel tributado. Mas o retorno não deve ser o único critério, pondera Almeida. “É preciso ver a liquidez, se o papel permite resgates antes do prazo se for necessário ou ajustar o prazo às necessidades e olhar o risco de crédito, que exige diversificação”, explica.
Vantagens e desvantagens dos títulos isentos
As principais vantagens seguem sendo a isenção de imposto para pessoa física, a proteção do Fundo Garantidor de Crédito até R$ 250 mil e a rentabilidade líquida que se destaca ante opções como os CDBs, afirma Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital. Entre as desvantagens estão a baixa liquidez, com carência mínima de 90 dias ou mais, e a dificuldade de resgate antecipado na maioria das ofertas. “O investidor precisa ter clareza sobre o horizonte para não ficar preso ao título”, alerta.
O comportamento das taxas também reflete uma diferença de oferta entre os dois papéis. Segundo Uarian, a emissão de LCI encolheu ao longo de 2026, enquanto as LCAs ganharam volume, o que ajuda a explicar a relativa estabilidade das remunerações desse segmento. “No geral os bancos e financeiras seguem captando de forma ativa, mas com spreads mais ajustados à realidade de juros e à concorrência com outros ativos de renda fixa”, diz. Os dados da Quantum confirmam o contraste: a LCI de um ano caiu de 95,43% para 89,5% do CDI na comparação anual, com oferta reduzida no período.
Debate sobre o fim da isenção retorna
O semestre terminou com a retomada da discussão sobre o fim da isenção, com representantes do Tesouro atribuindo aos papéis sem imposto parte da pressão sobre a taxa das NTN-Bs, os títulos públicos indexados à inflação. Depois de o governo tentar tributar LCIs, LCAs e outros isentos no ano passado com a Medida Provisória 1.303, que caducou no Congresso, Almeida acredita que o tema volta à pauta, mas não antes das eleições. “Vai chegar algum momento que esses produtos serão tributados e teremos o cenário de isonomia”, alerta.
A expectativa é que as aplicações feitas até uma eventual mudança, o chamado estoque, preservem a isenção, como previa a própria MP 1.303, que começou com alíquota de 7,5% para os isentos, depois reduzida para 5%. O tamanho desse estoque é justamente o que dá força política à resistência dos setores imobiliário e do agronegócio. “Até maio, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, havia um estoque de R$ 571 bilhões em LCA”, observa Almeida. As LCIs somavam cerca de R$ 540 bilhões, o equivalente a perto de 20% dos recursos que financiam o setor imobiliário.
Riscos e recomendações para investidores
Uma proposta de tributação pode disparar uma nova corrida por esses papéis, um risco na visão de Almeida. “O investidor toma decisão por impulso de preservar a isenção e esquece de enquadrar o investimento em seu perfil”, alerta, lembrando que muitos já carregam concentração elevada em um único emissor. Ainda assim, ele avalia que o movimento pode ser menor neste ano, diante da nova tributação sobre dividendos e do imposto mínimo de 10% para a alta renda. “Em alguns casos, dependendo da renda e do nível de patrimônio, pode compensar ter investimentos tributados para compensar o imposto mínimo de 10%”, afirma.
Uarian recomenda manter parcela em isentos enquanto disponíveis, priorizando prazos mais longos e diversificando com CRI, CRA, os certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio, e títulos tributados. “O cenário de possível mudança reforça a importância de revisar periodicamente a carteira e não concentrar excessivamente em um único tipo de ativo”, afirma.



