Recompras de ações na B3 disparam e somam R$ 25 bi em 2025
Recompras de ações na B3 disparam e somam R$ 25 bi em 2025

As empresas brasileiras intensificaram os programas de recompra de ações na B3 nos últimos meses, impulsionadas pela queda nos preços dos papéis. O movimento é interpretado como um sinal de que as próprias administrações veem valor nos preços atuais, mas analistas fazem ressalvas importantes antes de o investidor usar esse indicador como guia.

Números expressivos

Entre os últimos 15 dias de maio e os primeiros 15 de junho, 15 empresas aprovaram novos programas de recompra, somando um valor estimado de R$ 6,9 bilhões, conforme levantamento do Itaú BBA. Só em junho foram nove anúncios. No acumulado do ano, 42 companhias já comunicaram disposição de recomprar suas próprias ações, em volume estimado de R$ 25 bilhões. As compras efetivas no mercado totalizaram R$ 2,5 bilhões em maio e R$ 8,8 bilhões no ano, alta de 3,5% sobre o mesmo período de 2025.

Motivações setoriais e valuation

Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações para América Latina do Itaú BBA, atribui o movimento principalmente à queda de preços. “Valuations mais baixos tornam a recompra mais atrativa — a empresa ‘compra barato’ suas próprias ações —, e é natural que a administração registre programas quando enxerga as ações descontadas, conforme vimos historicamente em 2023 e 2024”, afirma. Há também um componente setorial: parte relevante do volume está concentrada em Utilities, como Copel (CPLE3, com R$ 4,2 bilhões) e Axia (AXIA3, com mais de R$ 10 bilhões), setores de caixa mais previsível.

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Métrica central: buyback yield

O “buyback yield” é a métrica central para avaliar o peso das recompras. Funciona de forma análoga ao dividend yield: mede o tamanho potencial do programa em relação ao valor de mercado da empresa. “O importante é enxergar a recompra como mais uma forma de remuneração ao acionista”, explica Gewehr: “somado ao dividend yield, forma um ‘total yield’ — quanto a empresa devolve de capital, via dividendos e recompras juntos.”

O Itaú BBA estima que o buyback yield esperado para o Ibovespa está em 1,2%. Os setores com maior indicador são Energia (9,4%), Consumo Discricionário (6,4%) e Utilities (5,5%). O JPMorgan acrescenta a dimensão de valuation: Industriais negociam abaixo da média histórica de dez anos e projetam crescimento de lucros de 13% em 2026 e 19% em 2027, enquanto Consumo Discricionário apresenta o maior desconto histórico entre os setores mapeados, equivalente a 52% da média de uma década.

Nomes em destaque

Alguns papéis concentram programas ativos, recomendação de compra e potencial de valorização expressivo até o preço-alvo. Entre os destaques para o mercado brasileiro, Itaú BBA e JPMorgan destacam:

  • VAMOS (VAMO3): programa de recompra de 3% das ações em circulação e potencial de valorização de 98% até o preço-alvo do JPMorgan.
  • JSL (JSLG3): upside de 87% no radar do banco, dentro do setor Industrial.
  • Totvs (TOTS3): potencial de 91% até o preço-alvo, com programa que prevê recompra de 3,3% das ações.
  • SmartFit (SMFT3): upside de 64%, no setor de Consumo Discricionário.
  • Localiza (RENT3): citada pelo Itaú BBA entre os nomes com buyback yield acima de 4% e pelo JPMorgan com potencial de 60% até o preço-alvo.
  • XP (XP): programa de até US$ 1 bilhão anunciado em maio e upside de 62% segundo o JPMorgan.

O que o investidor precisa considerar

Ambos os bancos convergem em dois alertas. O primeiro é que programa anunciado não é programa executado. “Dos R$ 81 bilhões em programas abertos, ainda há R$ 71,1 bilhões a recomprar, e muitos programas têm percentual de execução baixo: o registro dá a opção, não a obrigação de comprar”, lembra Gewehr. O ideal, segundo ele, é cruzar o sinal de recompra com fundamentos, ritmo efetivo de execução e a tese de cada caso.

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O segundo alerta é o peso do ambiente macroeconômico. “Estamos em um ano com muitos fatores macro (globais e locais) influenciando o mercado, sendo este um driver maior de retornos”, diz o estrategista. Gewehr vê o aumento das recompras como “um sinal positivo dado o histórico”, coerente com os valuations descontados da bolsa após a correção recente, mas reconhece que o movimento ainda precisa ser confirmado. “Vemos como um ponto de retomada, mas que ainda precisa ser confirmado nos próximos meses”, conclui.