A possibilidade de usar planos de previdência privada como garantia em operações de crédito vem ganhando tração entre investidores que buscam juros mais baixos sem abrir mão da reserva financeira de longo prazo.
Crescimento expressivo
Dados da Brasilprev, empresa de previdência privada ligada ao Banco do Brasil, mostram que o número de clientes que utilizaram a modalidade mais que dobrou nos primeiros meses deste ano. Segundo levantamento da companhia, entre janeiro e 15 de maio de 2025, 4.262 clientes contrataram operações usando a previdência como garantia. No mesmo período de 2026, esse número saltou para 8.988, alta de 111%. Já os valores bloqueados como garantia passaram de R$ 225 milhões para R$ 798,7 milhões, crescimento superior a 250%.
Regulamentação impulsiona modalidade
A modalidade ganhou impulso após a regulamentação trazida pela Resolução Conjunta nº 12/2024, do Conselho Monetário Nacional (CMN) e do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), que permitiu a utilização de planos de previdência complementar aberta como garantia em operações de crédito.
Para Camilo Buzzi, diretor Comercial e de Marketing da Brasilprev, o avanço da modalidade está relacionado à busca por crédito mais barato em um cenário de juros elevados e ao amadurecimento do mercado após a regulamentação. Segundo Buzzi, 2025 foi um período de adaptação operacional após a regulamentação da modalidade, enquanto 2026 já mostra aceleração na adesão dos clientes.
Impacto nos resgates
O executivo ressalta que os resgates no setor recuaram 10,2% no primeiro trimestre deste ano, de acordo com dados da Fenaprevi (Federação Nacional de Vida e Previdência). Ao mesmo tempo, a modalidade de crédito com garantia de previdência vem registrando forte crescimento, embora ele ressalte que a redução dos resgates não pode ser atribuída exclusivamente a esse fator.
Pesquisas realizadas pela Brasilprev com clientes que solicitaram resgates indicam que os principais motivos para antecipar o acesso aos recursos da previdência são pagamento de dívidas, compra de imóveis, despesas hospitalares, viagens e estudos. “Tem muito resgate de curto prazo que era feito para pagar pequenas despesas. E, na hora que as pessoas começam a fazer a conta e ver que realmente é vantajoso não resgatar o plano e fazer um empréstimo com uma taxa menor, deixando esse dinheiro em reserva, elas acabam não resgatando”, observa Buzzi.
Vantagem nas taxas
Como existe uma garantia vinculada à operação, as taxas tendem a ser menores do que as praticadas em linhas tradicionais de crédito pessoal. De acordo com a Brasilprev, dependendo da modalidade e do perfil do cliente, a redução pode chegar a algo entre 40% e 50% em relação a linhas sem garantia.
Vale a pena usar a previdência como garantia?
Para Rodrigo Caetano, planejador financeiro e gerente de investimentos da Sicredi Soma, a decisão entre resgatar a previdência ou contratar crédito usando o plano como garantia exige uma comparação completa dos custos envolvidos, incluindo impostos, juros e o potencial de rendimento que deixará de ser acumulado.
Um exemplo hipotético preparado por Caetano ajuda a entender: imagine um investidor que aplicou R$ 200 mil em um VGBL há 4,1 anos e acumulou saldo de R$ 282,3 mil após rentabilidade média de 9% ao ano. Precisando de R$ 150 mil, ele poderia optar pelo resgate ou pelo empréstimo com garantia do plano.
No cenário de resgate, seria necessário sacar R$ 161,8 mil para obter R$ 150 mil líquidos. Como parte do valor corresponde aos rendimentos acumulados, haveria cobrança de R$ 11,8 mil em imposto de renda (considerando 25% de IR na tabela regressiva). O saldo remanescente na previdência cairia para aproximadamente R$ 120,5 mil.
Já no cenário de crédito com garantia da previdência, o investidor tomaria R$ 150 mil emprestados a uma taxa de 1,62% ao mês, em 72 parcelas de R$ 3.544,40. Ao final do contrato, o custo total com juros seria de cerca de R$ 105,2 mil.
A diferença aparece no longo prazo. Mantendo os R$ 282,3 mil investidos por seis anos, com rentabilidade hipotética de 9% ao ano, o patrimônio alcançaria R$ 473,4 mil. No cenário de resgate, o saldo remanescente chegaria a aproximadamente R$ 202,1 mil.
Pelos cálculos do especialista, a combinação entre imposto pago e rentabilidade que deixa de ser acumulada gera um custo total de R$ 121,3 mil no cenário de resgate — valor superior aos R$ 105,2 mil pagos em juros no empréstimo. “Na maioria das vezes, usar a previdência privada como garantia é muito mais vantajoso do que resgatar, seja do ponto de vista de preservação de rentabilidade, impacto tributário e, claro, da taxa de juros”, diz.
Quais cuidados tomar
O especialista ressalta, porém, que aderir à modalidade exige cautela. Segundo Caetano, ela pode não ser indicada para quem está próximo de iniciar o recebimento da renda acumulada na previdência privada ou para investidores sem capacidade financeira comprovada para arcar com as parcelas do empréstimo.
Outro ponto de atenção é que o valor utilizado como garantia permanece bloqueado durante a vigência do contrato. Além disso, a portabilidade do plano fica limitada enquanto a operação estiver ativa. “É importante analisar o Custo Efetivo Total (CET), e não apenas a taxa de juros anunciada, além de verificar se o prazo do empréstimo é compatível com o período de acumulação do plano”, afirma.
Ainda assim, a expectativa do mercado é de expansão da modalidade nos próximos anos, impulsionada pelo elevado estoque de recursos em previdência privada, pela busca por crédito mais barato e pelo avanço da infraestrutura regulatória criada para dar segurança às operações.



