Com a normalização do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz após o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, o preço do Brent despencou para a faixa de US$ 72,20 por barril na última sexta-feira (3), 38% abaixo dos US$ 118 registrados no auge da guerra no Oriente Médio. Esse recuo já impacta as projeções de dividendos da Petrobras (PETR3, PETR4), a maior pagadora de proventos da Bolsa brasileira.
CFO da Petrobras sinaliza menos espaço para dividendos extraordinários
Em reunião com investidores no fim de junho, o CFO da Petrobras afirmou que há menos espaço para o pagamento de dividendos extraordinários em 2026. A decisão final deve ocorrer apenas próximo à divulgação do novo plano de negócios, prevista para o fim de 2026, mas o cenário já mexe com as projeções de analistas.
A Terra Investimentos reduziu a estimativa de dividend yield de 14,2% para 12,2% em 2026 e de 15,3% para 13,3% em 2027. “Como o preço do petróleo é o principal direcionador da geração de caixa da Petrobras, um Brent em patamares mais baixos tende a reduzir o potencial de distribuição de dividendos”, afirma Régis Chinchila, analista de research da Terra Investimentos. Segundo ele, “nas últimas semanas, o Brent perdeu parte do prêmio de risco geopolítico após o avanço das negociações entre EUA e Irã e a reabertura do Estreito de Ormuz, fatores que reduziram o receio de interrupções relevantes na oferta global”.
Zero Markets: queda do petróleo reduz capacidade de distribuição
Para Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, “não existe uma relação oficial que permita afirmar quanto os dividendos caem a cada US$ 1 de recuo no petróleo, pois o resultado também depende da produção, do câmbio, dos investimentos e da política de distribuição”. Ele pondera que “a empresa continua bastante lucrativa graças ao baixo custo de extração do pré-sal, mas a expectativa é de dividendos menores do que em um cenário de Brent acima de US$ 80”.
Recomendação de compra segue de pé
Mesmo com proventos menores no horizonte, especialistas seguem recomendando a ação da petroleira para carteiras de dividendos. A Terra Investimentos tem preço-alvo de R$ 48,00 para PETR4, potencial de valorização de aproximadamente 17,6% sobre o preço considerado em seu relatório mais recente. “A redução do Brent diminui parte do potencial de distribuição de dividendos, mas também reduz uma parcela importante do risco geopolítico que pressionava os mercados”, diz Chinchila. A casa projeta crescimento de 12,9% no EBITDA ajustado e de 21,3% no lucro líquido no terceiro trimestre, refletindo a melhora das margens de refino após medidas fiscais do governo. “Esperamos dividendos menores do que projetávamos anteriormente, mas ainda bastante elevados para os padrões do mercado brasileiro”, resume.
O Santander manteve o papel em sua carteira dividendos de julho, com o maior peso do portfólio (12%), preço-alvo de R$ 60,00 e dividend yield estimado em 11,66% para 2026. O Goldman Sachs também mantém recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 51,40 para PETR4 e dividend yield estimado em 11,9% para 2026 e 17,1% para 2027. Já o Bank of America cortou o preço-alvo de PETR4 de R$ 65,00 para R$ 55,00, mas manteve recomendação de compra.
Manter, reduzir ou comprar mais?
Para quem já tem o papel na carteira, “a estratégia mais adequada continua sendo manter a posição”, afirma Chinchila. Segundo ele, a tese fundamentalista não sofreu deterioração estrutural: o endividamento bruto permanece dentro dos limites do plano de negócios, o custo de extração no pré-sal segue abaixo de US$ 6 por barril, e a política de remuneração de 45% do fluxo de caixa livre está protegida pelo estatuto. “A volatilidade recente abre uma janela de oportunidade tática para o investidor de longo prazo acumular um ativo gerador de caixa a um preço de entrada mais atrativo”, diz.
Praça tem abordagens conforme o perfil: para quem busca renda recorrente e horizonte de longo prazo, manter a posição segue coerente; investidores muito concentrados em Petrobras devem evitar ampliar a exposição; para quem ainda não possui o papel, períodos de correção proporcionam pontos de entrada interessantes, “desde que a decisão esteja alinhada ao perfil de risco e à estratégia de diversificação da carteira”, afirma.



