O fluxo de capital estrangeiro para a Bolsa brasileira deu sinais de recuperação. No dia 10 de julho, quando o Ibovespa subiu cerca de 3% após o IPCA vir bem abaixo do esperado, os investidores estrangeiros aportaram R$ 1,5 bilhão – o maior fluxo diário desde abril. Esse movimento fez com que a categoria passasse de déficit para superávit de R$ 1,3 bilhão no mês. O saldo acumulado em 2026 permanece positivo, em R$ 35,2 bilhões.
Impacto da inflação brasileira e expectativas de corte da Selic
De acordo com a equipe da Ágora Investimentos, a forte alta do Ibovespa na sexta-feira contribuiu para reduzir a relação entre posições vendidas e o índice, mesmo em um ambiente ainda marcado por cautela. “Embora o apetite por risco siga mais moderado e as apostas tenham sido reduzidas, o consenso ainda favorável a Brasil entre gestores e a possibilidade de cortes adicionais da Selic sugerem espaço para novas recomposições de posição nas ações, caso indicadores continuem surpreendendo positivamente”, avalia a equipe de estratégia.
Na visão de Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX, os dados de inflação divulgados na última semana foram suficientemente favoráveis para consolidar a expectativa de um novo corte de 0,25 ponto percentual da Selic na próxima reunião do Copom. A queda dos juros pode aumentar a atratividade da renda variável, atraindo o capital estrangeiro para o mercado brasileiro.
CPI dos EUA surpreende e alivia pressão sobre juros
Corroborando o cenário de alívio, foi divulgado o índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos referente a junho. O dado mostrou uma queda de 0,4%, ante previsão de recuo de 0,1%. O resultado reduziu as apostas de altas de juros nos EUA em 2026.
Os economistas de vários bancos e casas de investimentos destacaram os preços mais baixos no mês não só de itens relacionados à energia, mas também de algumas categorias de serviços e bens. “Junho é o sinal mais limpo desde o início do processo desinflacionário — amplitude, tendência central e habitação na mesma direção ao mesmo tempo, pela primeira vez. Maio não cumpria o ônus da prova, mas junho avança nessa direção. Combinado com nossa estimativa de PCE core [índice de inflação preferido do Fed] em 0,17%, o dado satisfaz a condição que Christopher Waller [membro votante do Fomc] havia articulado para reabrir o debate sobre cortes. Para o FED, o número deve trazer alívio no curto prazo e deixar o BC em modo de espera”, aponta o Bradesco em relatório.
“É um dado positivo. Dá a ideia de que a inflação está mais concentrada em apenas alguns itens”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.
Na mesma linha, André Matos, CEO da MA7 Negócios, ressaltou que o CPI de junho trouxe um alívio de verdade para o mercado. “O mais importante, na minha leitura, foi o núcleo, que ficou estável no mês e recuou para 2,6% na taxa anual, porque isso mostra que a desaceleração não é só energia, a habitação, que é o maior peso do índice, teve a menor alta desde o início de 2021”, avalia.
Para o Fed, ressalta Matos, o dado tira boa parte da pressão. “O mercado chegou a precificar quase 40% de chance de alta de juros ainda em julho e um número desses tende a esvaziar essa aposta, o que costuma derrubar os juros dos Treasuries, enfraquecer o dólar no mundo e reabrir o apetite global por risco. Para o Brasil, esse combo tende a ser favorável, com espaço para o real se valorizar, os juros futuros cederem e o Ibovespa respirar, especialmente depois da pressão dos últimos dias”, ressalta o especialista da MA7 Negócios.
Leituras cautelosas e riscos geopolíticos
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, reforça que o CPI trouxe alívio relevante ao mostrar desaceleração mais ampla que a esperada, inclusive no núcleo, mas a queda mensal foi fortemente influenciada pela energia. “Isso limita a leitura de que a inflação americana já convergiu de forma sustentável à meta, sobretudo diante da retomada da pressão sobre petróleo e combustíveis”, aponta.
Para Lima, o número reduz a urgência de uma postura mais restritiva do Federal Reserve e enfraquece a probabilidade de novas altas no curto prazo, embora ainda não seja suficiente, isoladamente, para antecipar um ciclo consistente de cortes. Assim, a consequência imediata é a redução dos rendimentos dos Treasuries, enfraquecimento global do dólar e melhora do apetite por risco, combinação favorável aos mercados emergentes.
“No Brasil, esse movimento tende a valorizar o real e favorecer o Ibovespa por meio de menor taxa de desconto e potencial recomposição de fluxo estrangeiro. Mas acredito que o efeito sobre os ativos brasileiros deverá depender da persistência da desinflação americana e da evolução do risco fiscal doméstico”, aponta.
Matos, da MA7 Negócios, também faz a ressalva de que o dado do CPI fotografa junho, quando a energia despencou, com a gasolina caindo quase 10% no mês, e não captura a nova disparada do petróleo com a crise em Ormuz. “Então é um alívio legítimo, mas o teste real da inflação americana será o número de julho”, reforça.
Assim, o risco geopolítico continua no radar, em meio à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. Washington realizou a terceira noite consecutiva de ataques contra Teerã e bloqueio do Estreito de Ormuz, o que volta a impulsionar os preços do petróleo e influenciar a inflação olhando para frente, gerando volatilidade para o fluxo estrangeiro.
Contrastes no fluxo e recuperação do Ibovespa em julho
Mesmo com os desafios que se seguem para um fluxo de entrada mais positivo para a B3, a Elos Ayta destaca que, após atravessar seu período mais desafiador em 2026, o Ibovespa voltou a apresentar sinais de recuperação em julho. Até o fechamento do dia 13, o principal índice da B3 acumulava valorização no mês, interrompendo a sequência de quatro meses de perdas iniciada em março e devolvendo parte da confiança aos investidores.
Levantamento mostra que o comportamento do mercado neste ano tem sido marcado por mudanças bruscas de direção. Em apenas cinco meses, o Ibovespa passou de um dos melhores desempenhos mensais de sua história recente para um dos piores resultados desde o início da pandemia, retratando um ambiente de elevada volatilidade e rápidas mudanças na percepção dos investidores.
Janeiro de 2026 registrou valorização de 12,56%, o segundo melhor desempenho mensal do Ibovespa desde janeiro de 2020, ficando atrás apenas de novembro de 2020, quando o índice avançou 15,90% em meio ao forte movimento de recuperação dos mercados globais após a pandemia.
Poucos meses depois, o cenário mudou completamente. Maio encerrou com queda de 7,22%, o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023 (-7,49%) e o sexto pior resultado registrado pelo Ibovespa desde janeiro de 2020. Apenas março de 2020 (-29,90%), junho de 2022 (-11,50%), abril de 2022 (-10,10%), fevereiro de 2020 (-8,43%) e fevereiro de 2023 (-7,49%) apresentaram perdas mais acentuadas no período.
“Essa sequência de extremos ilustra como o mercado brasileiro tem reagido rapidamente às mudanças do cenário econômico, alternando momentos de forte otimismo e de intensa aversão ao risco em um intervalo relativamente curto”, ressalta a Elos Ayta. A recuperação observada em julho, ainda que parcial, mostra um retorno gradual do apetite por risco, mas o movimento permanece concentrado em alguns segmentos da Bolsa, avalia. Para a casa, o desempenho de julho representa um sinal positivo, mas ainda insuficiente para caracterizar uma reversão consistente da tendência observada ao longo do segundo trimestre.
“O comportamento do Ibovespa em 2026 evidencia a velocidade com que o humor do mercado pode mudar. Em poucos meses, passamos do segundo melhor desempenho mensal desde a pandemia para um dos seis piores resultados do mesmo período. A recuperação de julho é importante porque interrompe essa sequência negativa, mas ainda está concentrada em alguns setores. Os próximos meses mostrarão se esse movimento representa uma mudança estrutural de tendência ou apenas uma recuperação técnica”, reforça.



