O mercado de ETFs no Brasil completa 22 anos nesta quarta-feira (15), desde o lançamento do primeiro fundo do tipo, o PIBB11, que acompanha o IBrX-50. Atualmente, o país conta com 196 ETFs listados e 860 mil investidores nessa classe de fundos. Em maio, o estoque dos produtos na B3 praticamente dobrou em um ano, alcançando R$ 121 bilhões, segundo boletim mensal da Bolsa brasileira.
Captação recorde impulsionada por renda fixa
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que os ETFs tiveram captação líquida de R$ 32,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, um salto de 537,25% em relação ao mesmo período de 2025. Os fundos de renda fixa foram os principais responsáveis, com R$ 27,1 bilhões em entradas no ano.
O volume médio diário negociado (ADTV) dos ETFs em 2026 está em R$ 1,92 bilhão, superior à média de R$ 1,5 bilhão de 2025. O ADTV saltou de R$ 130 milhões em 2021 para R$ 1,48 bilhão em 2022, acompanhando o aumento de produtos disponíveis.
Novos lançamentos de ETFs de renda fixa
Em fevereiro de 2026, a Investo e a V8 Capital lançaram o LFIX11, ETF de Letras Financeiras (LFs). Em março, a Galapagos Capital estreou o POSB11, que combina Tesouro Selic e Tesouro IPCA+, com taxa zerada até novembro e custo de 0,15% ao ano a partir de dezembro. No mesmo mês, a XP Asset colocou no mercado o LTFX11 (atrelado ao Tesouro Selic) e o LTBX11 (92% Tesouro Selic e 8% Tesouro IPCA+). Em maio, a gestora lançou o PREX11, com cesta composta por Tesouro Prefixado e Tesouro Prefixado com Juros Semestrais.
Em junho, a Galapagos Capital estreou o 3PRE11, composto por títulos públicos prefixados, e a Itaú Asset trouxe o CDIB11, com alocação majoritária em Tesouro Selic e até 10% em Tesouro IPCA+ de longo prazo. A Grão Investimentos lançou o GPAC11, que acompanha o IPCA+, com taxa total de 0,1% ao ano, menor que a de outros ETFs de inflação de curto prazo, como o NTNS11 (0,19%), B5P211 (0,2%), PACC11 (0,19%) e BOL511 (0,2%). Em geral, para competir com o Tesouro Direto, os fundos buscam cobrar taxa menor ou igual à taxa de custódia da B3, de 0,2% ao ano.
Estratégias e corrida por taxas menores
Segundo Bruno Stein, responsável pela área de ETFs da Galapagos Capital, na montagem de um fundo de índice de renda fixa há caminhos para diferentes estratégias, como rebalanceamentos com frequências distintas. “A gestora pode tanto estruturar um índice melhor para ampliar o rendimento quanto oferecer um custo menor, que é a estratégia mais fácil”, diz. Ele enxerga que o mercado deve convergir para taxas cada vez menores, mas há um limite: “Chega uma hora que não faz mais tanta diferença abaixar a taxa”. Stein observa que, entre gestoras ligadas a grandes instituições financeiras, a corrida por lançamentos reflete a estratégia de oferecer produtos próprios em seus canais de distribuição. “Cada instituição quer vender o próprio fundo e há uma disputa por esse mercado. Quem lança primeiro ganha mais poder para definir preços”, afirma.
Taxa baixa não é o único critério
Gestores destacam que, ao avaliar um ETF, é preciso olhar além da taxa de administração. Renato Eid, diretor de estratégias indexadas da Itaú Asset, explica: “Como é um mercado de balcão, se o gestor não tiver a capacidade de negociar a preços competitivos, esse custo acaba indo para o ETF e corrói a performance do fundo”. Outro ponto importante é verificar se o produto tem formador de mercado (market maker) contratado, que contribui para dar liquidez e reduzir distorções de preço. O preço da cota também deve ser considerado: segundo Eid, não adianta oferecer taxa baixa se o valor unitário for elevado.
Cauê Mançanares, CEO da Investo, avalia que uma variação pequena entre as taxas não faz tanta diferença na prática e funciona mais como ferramenta de marketing. “Ao olhar para um ETF, é preciso pensar na eficiência do produto, em vez de tentar comprar o mais barato”, destaca.
ETFs de renda fixa com maior retorno em 2026
Levantamento da Economatica a pedido do E-Investidor apontou os ETFs de renda fixa de maior retorno em 2026. O campeão foi o MARG11, da BTG Asset, com alta de 7,63%, que acompanha debêntures usadas como margem de garantia na B3. Em seguida, o DEBB11, também da BTG Asset e associado a debêntures, avançou 7,33%. Completando o pódio, o NLFA11, da Nu Asset, atrelado a Letras Financeiras, registrou ganhos de 7,1%.
Vantagens tributárias e alertas
Os ETFs de renda fixa ganharam destaque por suas vantagens tributárias: estão livres do come-cotas e do IOF. Além disso, na maior parte deles, é aplicada alíquota única de IR de 15%, independentemente do prazo da aplicação, ao contrário da tabela regressiva da renda fixa tradicional (de 22,5% a 15%). Isso é possível porque a tributação depende do prazo médio dos títulos da carteira, não do tempo do investidor.
Apesar das vantagens, Luciana Seabra, chefe de análise da Indê e colunista do E-Investidor, alerta: nem todo ETF de renda fixa é bom. Fundos que cobram mais de 0,5% ao ano precisam oferecer algum diferencial, como estratégia mais sofisticada. “Caso contrário, o ETF perde completamente o sentido”, alerta. Outra questão é a aderência ao índice de referência. “Parece óbvio, mas não é. Já encontrei ETFs com rendimento muito diferente do ativo que a gestora dizia acompanhar. Então, a qualidade da gestão importa, sim”, destaca Seabra.



