Endividamento de empresas brasileiras é monitorado de perto
Endividamento de empresas brasileiras sob vigilância

Em meio à piora das expectativas para inflação e juros, o mercado voltou a olhar com mais atenção para o endividamento das empresas brasileiras. Segundo relatório divulgado na quarta-feira (17), a XP Investimentos aponta que, apesar disso, a maior parte dos balanços corporativos permanece em situação confortável.

Foram analisadas 140 companhias sob cobertura da casa. “Os indicadores financeiros agregados e setoriais seguem, de modo geral, saudáveis e próximos das médias históricas”, diz o relatório. A casa acrescenta que as projeções de seus analistas não apontam para uma deterioração relevante da alavancagem financeira em 2026 e 2027.

Cenário de juros mais altos

O diagnóstico ganha importância porque a perspectiva para os juros mudou de forma significativa nos últimos meses. A casa lembra que iniciou o ano esperando um ambiente mais favorável para as ações brasileiras, mas a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã provocou uma piora das expectativas de inflação e levou a uma revisão das projeções para a taxa básica de juros. Como resultado, a estimativa da XP para a Selic para o fim de 2026 passou de 12,5% para 14%.

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Preferência por empresas de baixa alavancagem

A dinâmica pede um olhar especial sob companhias com baixa alavancagem financeira. “Reiteramos nossa preferência por nomes de alta qualidade, com baixa alavancagem e balanços sólidos, especialmente diante da recente deterioração da perspectiva para os juros”, afirmam os analistas, em relatório. A XP explica que essa estratégia vem sendo adotada desde o ano passado e considera que ela se tornou ainda mais relevante após a abertura recente da curva de juros.

Para sustentar essa visão, os analistas verificaram o desempenho de seu fator proprietário de Baixa Alavancagem em diferentes ciclos econômicos. O resultado mostrou que empresas menos endividadas tendem a apresentar desempenho superior quando o mercado passa a precificar juros mais elevados. Segundo os analistas, a vantagem desses papéis não se restringe aos períodos de aperto monetário. “Mesmo em ciclos de afrouxamento monetário, ações de baixa alavancagem ainda tendem a superar seus pares mais alavancados, embora com menor intensidade relativa”, ressaltam.

Ranking de baixa alavancagem

O ranking elaborado pela XP mostra quais empresas receberam as maiores pontuações no indicador proprietário de baixa alavancagem.

Empresas com as maiores pontuações no fator de baixa alavancagem:

  • Porto (PSSA3) - 99,6
  • Ferbasa (FESA4) - 99,6
  • Grendene (GRND3) - 98,9
  • Cyrela (CYRE3) - 98,2
  • Bemobi (BMOB3) - 98,1
  • Aliansce Sonae (ALOS3) - 97,7
  • Ambev (ABEV3) - 96,6
  • Lojas Quero-Quero (LJQQ3) - 96,1
  • WEG (WEGE3) - 95,4
  • Tegma (TGMA3) - 92,7

Porto, Ferbasa, Grendene e Cyrela aparecem na liderança da lista, seguidas por nomes como Bemobi, Ambev e WEG. Segundo a XP, essas companhias reúnem características que tendem a ser valorizadas em um ambiente de juros elevados.

Na outra ponta do ranking estão empresas que receberam as menores pontuações no indicador.

Empresas com as menores pontuações no fator de baixa alavancagem:

  • Gafisa (GFSA3) - 26,1
  • Camil (CAML3) - 23,5
  • BHIA (BHIA3) - 23,1
  • Ânima (ANIM3) - 23,0
  • Suzano (SUZB3) - 22,8
  • Simpar (SIMH3) - 22,3
  • ISA Energia (ISAE4) - 21,4
  • HBR Realty (HBRH3) - 19,4
  • Hapvida (HAPV3) - 19,0
  • Taesa (TAEE11) - 17,8

Além da estratégia quantitativa, a XP também montou uma cesta específica de ações baseada em três critérios: recomendação de compra, presença entre os nomes com menor alavancagem financeira e revisões positivas de lucro por ação nos últimos três meses.

Setores mais expostos aos juros

O relatório também identificou quais setores da Bolsa brasileira são mais vulneráveis a um cenário de juros elevados por mais tempo. Para isso, a XP combinou a sensibilidade histórica das ações às taxas de juros, indicadores de saúde financeira e a participação de dívidas atreladas ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário).

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O resultado coloca o Varejo como o segmento mais exposto ao cenário atual. De acordo com o documento, o setor reúne elevada sensibilidade aos juros e forte dependência de financiamentos indexados ao CDI, combinação que aumenta a pressão sobre os resultados quando o custo do crédito sobe.

Setores mais e menos expostos a juros altos por mais tempo:

  • Varejo - 1,00
  • Saneamento - 0,95
  • Elétricas - 0,93
  • Transportes - 0,88
  • Alimentos & Bebidas - 0,83
  • Propriedades Comerciais - 0,83
  • Agro - 0,68
  • Construção Civil - 0,61
  • TMT (Tecnologia, Mídia e Telecomunicações) - 0,41
  • Papel & Celulose - 0,37
  • Óleo & Gás - 0,27
  • Bens de Capital - 0,17
  • Mineração & Siderurgia - 0,00

Em segundo lugar aparece Saneamento, seguido por Elétricas e Transportes. A XP observa que setores ligados à infraestrutura também costumam ser mais afetados quando as expectativas para os juros se deterioram.

Na direção oposta, os segmentos ligados a commodities apresentam maior resistência. Mineração & Siderurgia aparece como o setor menos exposto do levantamento, enquanto Óleo & Gás e Papel & Celulose também figuram entre os grupos menos sensíveis às mudanças na política monetária.

Cuidados com riscos nas projeções

Além do impacto sobre as ações, os analistas da XP também avaliaram quais seriam os reflexos de juros mais altos sobre os resultados corporativos, pois uma das principais dúvidas do mercado atualmente é se as projeções de lucro já incorporam adequadamente um cenário de Selic mais alta.

O documento pontua que as estimativas de Lucro por Ação (LPA) avançaram recentemente, dentro de uma movimentação causada especialmente pelo setor de Energia após o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. Ainda assim, os analistas acreditam que existe espaço para revisões negativas caso o custo do crédito permaneça elevado por mais tempo.

A XP destaca que suas projeções consideram uma redução de 17% das despesas financeiras em 2027 na comparação com 2026. Além disso, a participação dessas despesas no EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) deve recuar de 23% para 21% no mesmo período.

Para os analistas, parte do mercado pode estar otimista demais em relação a essas projeções. “Esse risco ainda não parece estar refletido nas estimativas de lucros, o que pode levar a revisões para baixo adiante”, conforme o documento.

Atenção na visão setorial

Apesar dos indicadores continuarem saudáveis de forma geral, a XP afirma que os investidores não devem se limitar à análise das médias setoriais, ou seja, não basta só tomar cuidado com setores específicos. “O principal risco está nas caudas, não nas médias”, diz o relatório.

A principal explicação está nas diferenças existentes entre empresas que atuam dentro do mesmo segmento. “A dispersão dentro dos setores é significativa, com bolsões de risco entre os nomes mais alavancados de cada setor”, diz o relatório.

A avaliação mostra que setores como Agro, Bens de Capital, Alimentos & Bebidas, Óleo & Gás, Transportes e Utilidade Pública podem parecer saudáveis quando observados pelas médias, mas escondem empresas com condições financeiras significativamente mais frágeis.

Mesmo diante desses casos específicos, a conclusão da XP permanece positiva. Segundo a instituição, “as métricas permanecem saudáveis e amplamente em linha com as médias históricas, tanto no nível consolidado quanto setorial”. Para a casa, os riscos existem e exigem seletividade dos investidores, mas o quadro geral das empresas brasileiras continua distante de um cenário de deterioração generalizada.