IPCA abre espaço para Selic cair, mas BC precisa de cautela
IPCA abre espaço para Selic cair, mas BC precisa cautela

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro veio abaixo das expectativas do mercado, abrindo espaço para que o Banco Central (BC) inicie um ciclo de cortes na taxa Selic. No entanto, analistas alertam que a decisão deve ser tomada com cautela, diante de incertezas fiscais e do cenário externo adverso.

Número surpreende e alivia pressão sobre juros

O IPCA registrou alta de 0,84% em fevereiro, acumulando 4,52% em 12 meses. O resultado ficou abaixo do teto da meta de inflação, que é de 4,5% para 2023. A surpresa positiva veio principalmente dos preços de alimentos e combustíveis, que desaceleraram mais do que o previsto. Para o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, o dado reforça a tese de que a inflação está cedendo, mas não autoriza relaxamento: “O BC precisa manter a credibilidade e não pode se apressar em cortar juros sem garantir que a inflação continuará convergindo para a meta.”

Copom deve manter tom duro, mas pode sinalizar alívio

Na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março, a expectativa é de manutenção da Selic em 13,75% ao ano, mas com possibilidade de alteração no comunicado. O mercado aposta que o BC pode retirar a frase sobre “persistência inflacionária” e abrir espaço para cortes futuros. No entanto, a diretoria do BC tem reiterado a necessidade de cautela. Em evento recente, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que “a inflação de serviços ainda está elevada e o mercado de trabalho aquecido, o que exige vigilância”.

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Riscos fiscais e externos pesam na balança

O principal risco para a queda dos juros é a situação fiscal do país. O governo federal discute a nova regra do arcabouço fiscal, que substituirá o teto de gastos. A falta de definição gera incerteza e pode pressionar o câmbio e as expectativas de inflação. Além disso, o aperto monetário nos Estados Unidos e a desaceleração da economia global também são fatores de preocupação. Segundo o economista Sérgio Vale, da MB Associados, “o BC não pode ignorar o cenário externo, que pode contaminar a inflação doméstica via câmbio”.

Setor produtivo pressiona por corte, mas BC resiste

Empresários e políticos têm cobrado a redução dos juros para estimular a atividade econômica. A indústria, o comércio e o setor de serviços sofrem com o crédito caro e a demanda fraca. No entanto, o BC mantém a postura de que a política monetária deve ser contracionista até que a inflação esteja sob controle. Para a economista-chefe do Banco Original, Priscila Monteiro, “o BC está correto em não ceder à pressão política. A credibilidade é um ativo que não pode ser perdido”.

Mercado já precifica corte em maio ou junho

Apesar da cautela do BC, o mercado financeiro já precifica um primeiro corte de 0,25 ponto percentual na Selic em maio ou junho. A curva de juros futuros indica que a taxa pode encerrar o ano em 12,5% ou 12,25%. A redução dependerá da evolução da inflação, do cenário fiscal e das condições externas. O IPCA de fevereiro deu um alívio, mas a batalha contra a inflação ainda não terminou.

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