SpliceVision: console raro de Votorantim é destaque em museu itinerante
SpliceVision: console raro de Votorantim em museu

Um console raro fabricado em Votorantim, interior de São Paulo, há 40 anos, está em destaque no Museu do Videogame Itinerante. O SpliceVision, lançado em 1983 durante a política de reserva de mercado no Brasil, é um clone do ColecoVision e prometia disputar espaço com o Atari. Com design rústico, caixa plástica, cabos espirais e joysticks com números e asteriscos, o aparelho pode ser confundido com um telefone.

Contexto histórico e política de reserva de mercado

O videogame foi criado em uma época em que o Brasil vivia o regime militar e adotava a política da reserva de mercado. Cleidson Lima, jornalista criador do Museu de Videogames Itinerante, explicou ao g1 que essa política protecionista, vigente até o início dos anos 90, proibia a importação de determinados produtos estrangeiros, especialmente no setor de informática. O objetivo era fortalecer a indústria nacional, estimulando empregos e o desenvolvimento de tecnologia brasileira.

Diante desse cenário, o Grupo Splice, de Votorantim, especializado em telecomunicações, inspirou-se no ColecoVision, concorrente mais avançado do Atari, para criar o SpliceVision. "O Atari era um console muito mais prático e acessível para o público brasileiro. Tinha mais jogos disponíveis, diferente do Splice, que tinha cartuchos exclusivos e de alto custo", destacou Cleidson.

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Características técnicas e produção

O SpliceVision possuía jogos traduzidos para o português, inspirados em títulos internacionais como "Smurf: Rescue in Gargamel's Castle", lançado como "Duende", "Donkey Kong" como "Monkey Dong", e "Zaxxon" como "Jaxxon". Em entrevista ao documentário "1983 - O Ano dos Videogames no Brasil", o falecido Kazuaki Ishizu, gerente geral da Splice entre 1974 e 1984, afirmou que o produto foi feito com peças "recicladas" de telefonia. "Partir para o entretenimento é uma coisa diferente. Você tinha que ter investimento inicial muito grande. Depois, veja bem, se valer a pena esse investimento, para ver conforme o retorno que entra. Mas, contra a vontade, autorizaram a produção", disse Ishizu.

Ele também contou que a estrutura física do Coleco era completamente diferente e que a alternativa encontrada foi mudar a caixa. "Nós técnicos comprávamos no mercado, em Santa Ifigênia, para fazer quebra-galho de algum instrumento que a gente precisava". Por causa da exclusividade das peças, mesmo que um ColecoVision fosse trazido ao Brasil, nenhuma peça seria compatível entre os consoles, tanto em hardware quanto em software.

Fracasso comercial e raridade atual

Devido aos altos custos de produção e venda, além do hardware defasado, o console não teve sucesso comercial e foi descontinuado poucos anos após o lançamento, tornando-se uma relíquia para colecionadores. Cleidson Lima comparou o Atari a um PlayStation 3 e disse que o SpliceVision prometia ser um PlayStation 5, custando muito mais. Convertido para os valores atuais, o Splice poderia custar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil.

Um exemplar doado por Carlos Paim, de Fortaleza (CE), ao Museu do Videogame Itinerante, esteve em exibição no Shopping Iguatemi Esplanada durante o mês de junho deste ano. O museu é reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), ligado ao Ministério da Cultura.

Museu do Videogame Itinerante

Criado por Cleidson Lima após uma discussão com a esposa há 15 anos, o museu nasceu da coleção particular do jornalista. "Tudo começou com uma DR. Eu sempre tive a coleção em casa, né? E chegou um momento que só faltava ter videogames no banheiro. Eles ficavam expostos em praticamente todas as paredes de casa, até que, um dia, a minha esposa falou para eu me livrar de tudo", disse. Atualmente, o museu tem mais de 600 consoles e mais de 6 mil jogos. Entre os itens mais raros está o SpliceVision, considerado um dos videogames mais raros do mundo.

David Rayel, coordenador técnico da exposição, explicou que a raridade do SpliceVision o torna especial. "A gente tem um carinho especial por isso (pela raridade). Videogame tem nostalgia, videogame vem da cultura brasileira, mundial. Então, a gente consegue juntar um público muito legal (no evento), muito divertido, pai, mãe, um filho. (...) O que a gente mais gosta é justamente essa dinâmica, esse pai que está relembrando o videogame antigo, a criança que está conhecendo", pontuou.

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