Em uma iniciativa inédita, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Câmara de Comércio Americana (Amcham) e a Câmara de Comércio dos Estados Unidos (US Chamber) uniram forças para propor uma agenda bilateral que evite a imposição de novas tarifas dos Estados Unidos ao Brasil. O documento, intitulado 'Agenda para o Fortalecimento da Parceria Econômica Brasil-Estados Unidos', foi divulgado nesta quinta-feira e estabelece diretrizes para aprofundar a cooperação em áreas estratégicas.
Contexto das tarifas americanas
O movimento ocorre em meio a ameaças do governo americano de elevar tarifas sobre produtos brasileiros, especialmente no setor siderúrgico e de alumínio. Em 2025, os EUA impuseram tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio do Brasil, gerando preocupação no setor industrial. A nova proposta visa criar um canal de diálogo permanente para resolver disputas comerciais antes que se transformem em barreiras tarifárias.
Segundo a CNI, o Brasil exportou US$ 42 bilhões em produtos para os EUA em 2025, sendo que cerca de 15% desses itens estão sujeitos a alguma forma de restrição comercial. 'A parceria econômica entre os dois países é madura, mas precisa ser atualizada para evitar sobressaltos como as tarifas recentes', afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Eixos da proposta conjunta
A agenda é estruturada em quatro pilares principais. O primeiro é a facilitação do comércio, com a eliminação de barreiras não tarifárias e a harmonização de normas técnicas. O segundo pilar trata de investimentos em infraestrutura e energia, com destaque para projetos de transição energética. O terceiro eixo aborda a cooperação em tecnologia e inovação, incluindo parcerias em semicondutores e inteligência artificial. Por fim, o quarto pilar propõe a criação de um mecanismo bilateral de consulta para temas de defesa comercial.
A Amcham destacou que a proposta reflete o interesse de mais de 200 empresas americanas instaladas no Brasil. 'Nosso objetivo é construir uma relação comercial previsível e mutuamente benéfica, que gere empregos e desenvolvimento para ambos os lados', disse a presidente da Amcham, Deborah Stern.
Reações do governo brasileiro
O Ministério da Economia brasileiro recebeu a proposta com otimismo. Em nota, o ministro Fernando Haddad afirmou que 'a iniciativa privada demonstra maturidade ao propor soluções concretas para desafios comerciais'. Haddad adiantou que o governo deve usar o documento como base para as negociações com a equipe econômica americana durante a visita do presidente Lula a Washington, prevista para maio.
Especialistas apontam que a agenda pode ser um divisor de águas nas relações bilaterais. 'As tarifas americanas são um instrumento político, mas a proposta das entidades empresariais mostra que há espaço para uma abordagem mais cooperativa', avaliou o economista Pedro Silva, da FGV.
Próximos passos
A CNI, a Amcham e a US Chamber pretendem apresentar a agenda formalmente ao governo americano nas próximas semanas. O documento também será debatido em audiências públicas no Congresso brasileiro. A expectativa é que, com o engajamento dos setores produtivos, seja possível evitar novas tarifas e ampliar o comércio bilateral, que hoje soma US$ 75 bilhões anuais.



