Ata do Copom na terça pode ajustar ruídos e acalmar mercado
Ata do Copom na terça pode ajustar ruídos e acalmar mercado

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que decidiu cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, será divulgada na próxima terça-feira (23) às 8h (horário de Brasília). O documento é aguardado com expectativa por investidores, após o comunicado da decisão ter gerado ruídos que provocaram disparada do dólar e alta firme nas taxas de juros longos.

Comunicado gerou confusão e dúvidas sobre novos cortes

Logo após a decisão da última quarta-feira, Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, destacou que, embora o corte fosse esperado pela maioria do mercado, não era unanimidade. A deterioração do cenário de inflação levantou dúvidas sobre a continuidade do processo de calibragem da política monetária iniciado em março. “Os recados do comunicado trouxeram um cenário ainda incerto”, afirmou Olivares, que aguarda a ata para esclarecimentos sobre o exercício que fundamentou a decisão.

Investidores reagiram negativamente ao comunicado considerado “dovish” (suave com a inflação). Analistas interpretaram que o Banco Central estendeu o horizonte relevante da política monetária do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028, adiando o atingimento da meta de 3% e reforçando a percepção de que pode haver novo corte em agosto. Isso elevou os juros futuros nos contratos mais longos, gerando impacto negativo no mercado.

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Inconsistência entre comunicado e cenário macro

José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, afirma que a ata terá papel central devido à inconsistência percebida entre o comunicado e o cenário macro. “A piora no balanço de riscos, a deterioração da inflação no horizonte relevante e o reconhecimento da resiliência da atividade econômica não são compatíveis com um corte de 0,25%, sem indicativos de encerramento do ciclo”, disse. Uma das dúvidas críticas é se o BC utilizou uma trajetória de Selic estável em suas projeções. “Não ficou claro se o BC adotou Selic parada em 14,5% em alguma simulação. Ao alongar o horizonte relevante para 2028, a interpretação foi de que o BC ‘fabricou’ um argumento para seguir com os cortes, o que trouxe má repercussão no mercado”, acrescenta.

Na visão de Alfaix, a ata pode reduzir esses ruídos se trouxer mais transparência. Caso contrário, o risco é de nova reação negativa dos ativos. “Se as projeções e a postura do comitê não estiverem alinhadas, esperamos nova resposta negativa do mercado, sob receios de inflação mais alta adiante”, diz.

Itaú e Goldman Sachs projetam possíveis cenários

Na visão do Itaú, o comunicado deixou margem para o comitê continuar o ciclo de calibração ou fazer uma pausa na próxima reunião, citando sua projeção de inflação futura como parte da justificativa para dar continuidade ao processo. Ao mesmo tempo, o comitê ajustou sua avaliação sobre a situação da economia, observando que estímulos adicionais à demanda representam um risco de alta para a inflação. “Por ora, esperamos outro corte moderado, para 14% ao ano, na reunião de agosto, sendo provável que a ata esclareça os critérios para novos afrouxamentos”, projeta o banco.

O Goldman Sachs destaca a possibilidade de a ata trazer uma orientação (“forward guidance”) mais objetiva, além de esclarecer em quais condições o BC poderia interromper o ciclo de afrouxamento. Também deve ganhar destaque a discussão sobre o espaço para novos cortes, em um ambiente de incertezas elevadas, expectativas de inflação desancoradas e projeções acima da meta.

Peso acima do usual para a ata

Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, afirma que o documento terá peso acima do usual. “A ata deixa de ser um documento de rotina e passa a ser a principal referência da semana para precificação de ativos”, disse. Segundo ele, o mercado reagiu ao comunicado revisando para cima a Selic terminal e abrindo a curva longa — movimento que só deve ser revertido com uma comunicação mais precisa. “A ata precisa explicitar o horizonte relevante adotado, os cenários considerados e as condições para novos cortes”, afirma.

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Rizzo avalia que o BC não precisa recuar, mas deve aprimorar a clareza da sua comunicação. “O caminho passa por precisão. Um tom técnico e sem ambiguidade é essencial para recompor a função de reação do BC e reduzir prêmios nos vencimentos mais longos”, diz.

Impacto esperado nos ativos

Rizzo destaca que uma comunicação clara pode favorecer o mercado. “Se a ata reafirmar o compromisso com a convergência da inflação à meta e condicionar novos cortes a dados concretos, tende a fechar a curva longa e valorizar renda fixa, bolsa e câmbio”, afirma. Por outro lado, a falta de definição sobre o piso da Selic ou uma aparente tolerância com inflação acima da meta pode manter os prêmios de risco elevados.

João Luís Debom, head do private da Supernova Investimentos, observa que o impacto dependerá diretamente do tom da ata: uma sinalização mais cautelosa tende a fortalecer o real e aliviar o dólar, enquanto um texto mais dovish pode gerar o movimento oposto.

Por enquanto, o mercado segue cauteloso quanto a novos cortes. A última pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira (22), mostrou que analistas consultados pelo BC passaram a ver apenas mais um corte na Selic este ano, de 0,25 ponto percentual em agosto, com a taxa mantida em 14,0% nas reuniões seguintes de 2026.