A avaliação de US$ 1,77 trilhão da SpaceX no IPO pressupõe um nível de execução raro até entre gigantes da tecnologia. Para justificar esse preço, a empresa teria de multiplicar sua receita de cerca de US$ 18 bilhões para quase US$ 500 bilhões em quatro anos – um salto que, segundo Thiago Kapulskis, da São Pedro Capital, gestora fundada pelo ex-CEO do Google Brasil, exigiria fazer em poucos anos o que levou mais de uma década para empresas como a Amazon.
Contexto do investimento
Nesse contexto, diz o gestor, o investimento acaba carregando um alto grau de aposta na capacidade de entrega de Elon Musk. As ações da empresa aeroespacial, de internet por satélite e inteligência artificial começaram a ser negociadas na última sexta-feira, 12. Segundo Kapulskis, essas expectativas já aparecem nas projeções de mercado.
O presidente-executivo Elon Musk disse no domingo que a empresa, que atua desde foguetes até inteligência artificial, poderia gerar US$ 1 trilhão em receita até 2030. Estimativas de analistas do Goldman Sachs indicam que a receita da SpaceX pode saltar de cerca de US$ 18 bilhões para quase US$ 500 bilhões em quatro anos, impulsionada principalmente pelo avanço de inteligência artificial e infraestrutura de dados.
Demanda no IPO: oportunidade ou euforia?
Questionado sobre a procura estimada em quatro vezes a oferta do IPO, Kapulskis avalia: “Acho que o fator da demanda ajuda o efeito técnico. Se você tem uma demanda muito maior no IPO, isso significa que existe gente querendo comprar mais do que existe papel disponível. A empresa poderia dizer: ‘Não vou vender a US$ 135, vou vender a US$ 160, porque tem gente suficiente para pagar mais caro’. Ela não fez isso, e deixou essa valorização para o investidor. O mercado tende a ajustar o papel para um preço mais alto. Isso não significa necessariamente euforia.”
Vale a pena investir na SpaceX?
O gestor destaca dois ângulos: especulativo e de longo prazo. “Do ponto de vista especulativo, existe um fator técnico que pode levar o preço da ação a subir no curto prazo. Houve uma mudança para acomodar a empresa no índice da Nasdaq 15 dias após o IPO. Isso irá criar um fluxo que não tem opinião sobre o papel. Os ETFs que acompanham o índice vão ter de comprar as ações. É um fluxo de compra que tende a levar o preço para cima. Já o lock-up (período após um IPO em que investidores antigos ficam proibidos de vender suas ações) vai ser um fluxo de venda quando terminar. Então são duas forças que se opõem. A gente pode tentar fazer a conta para descobrir qual pesa mais, mas é muito difícil. A chance de errar é maior do que a de acertar.”
Impacto em outros ativos
Kapulskis ressalta que nunca vimos um IPO de tecnologia desse tamanho. “O da Saudi Aramco era outro tipo de empresa. Não existe um precedente direto dentro de tecnologia. Ela provavelmente terá um peso relevante no índice da Nasdaq. Se ela representar 5% do índice, alguém vai representar menos.”
Perguntado sobre quem tende a sofrer, ele explica: “Como os recursos são limitados, as empresas mais presentes nesses índices são as que têm maior chance de sofrer algum ajuste. Ao mesmo tempo, dependendo de como ocorrer esse rebalanceamento, as menores também podem sentir impactos.”
Estratégia passiva vs. ativa
Sobre a inclusão da SpaceX na Nasdaq, mas não no S&P 500, Kapulskis afirma: “Aumenta um pouco o risco desse tipo de investimento passivo, mas não necessariamente por causa dessa mudança específica. O S&P disse que não vai mudar sua regra, enquanto alguns provedores de índice resolveram mudar. Quando os índices passam a ter mais mudanças, mais exceções e mais questionamentos, o papel da gestão ativa fica mais relevante.”
Ele conclui: “Isso enfraquece a tese puramente passiva e pode fazer com que o investimento passivo deixe de ser a melhor opção para todos os investidores. Ainda mais quando vierem OpenAI, Anthropic e outras empresas do setor. Os índices vão ficando cada vez mais concentrados em uma mesma tese. A gente precisa lembrar que os ETFs seguem índices. E os índices têm história. Quem viveu 2000 ou 2008 sabe disso. Em 2001 vi situações em que índices caíram 80%. E não foi uma experiência agradável para quem estava excessivamente concentrado. Não estou dizendo que isso vai acontecer de novo. O que eu estou querendo dizer é que nada é imbatível. Principalmente nesses momentos em que todo mundo acha que só sobe, que é uma tendência inevitável.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



