A SpaceX deve estrear nesta sexta-feira (12) na Bolsa de Valores de Nova York com uma avaliação de aproximadamente US$ 1,75 trilhão (R$ 8,93 trilhões). Com esse valor de mercado, a empresa de Elon Musk passaria a ocupar a oitava posição entre as companhias mais valiosas do mundo. A forte aposta de investidores de Wall Street na SpaceX pode parecer contraditória, já que, apesar de estar prestes a realizar o maior IPO da história, com captação estimada em US$ 75 bilhões (R$ 382,6 bilhões), a empresa ainda opera no vermelho.
Prejuízos bilionários e receita em crescimento
Em 2025, a receita de US$ 18,7 bilhões (R$ 95,3 bilhões) não foi suficiente para evitar um prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões (R$ 24,9 bilhões). Especialistas consultados explicam que o otimismo dos investidores se deve à mudança na percepção do mercado sobre a SpaceX. A empresa deixou de ser vista apenas como uma fabricante de foguetes e passou a ser associada ao potencial de integração entre as operações de inteligência artificial da xAI e os serviços da rede global de internet via satélite da Starlink.
Pedro Waengertner, CEO da ACE Ventures, afirma: "Musk criou uma ‘superempresa’ de telecomunicações. A Starlink sozinha se tornou um negócio global que hoje é maior que a própria operação espacial em termos de faturamento."
Expectativas dos investidores
Segundo Rylan Chase, analista de mercado da EBC Financial Group, os investidores que apostam na empresa estão pagando antecipadamente pelo potencial de expansão da conectividade da Starlink, pela futura monetização do foguete Starship e pela tese de infraestrutura de inteligência artificial criada pela combinação com a xAI. Os mais céticos temem que os planos de Elon Musk sejam ambiciosos demais para corresponder às expectativas.
No documento de preparação para a estreia na bolsa, a SpaceX afirma que pretende construir uma base permanente na Lua e, no longo prazo, estabelecer uma colônia em Marte capaz de abrigar até 1 milhão de pessoas. A companhia também projeta desenvolver centros de processamento de dados em órbita alimentados por energia solar e impulsionar uma "economia espacial" baseada em fábricas, sistemas de energia e infraestrutura operando fora da Terra.
"Você quer acordar de manhã e pensar que o futuro vai ser grandioso — e é disso que se trata ser uma civilização espacial. Trata-se de acreditar no futuro e de pensar que ele será melhor do que o passado. E não consigo imaginar nada mais empolgante do que sair por aí e estar entre as estrelas." — Elon Musk, no documento de abertura de capital da SpaceX.
Riscos e volatilidade
Por mais que a SpaceX deva fazer uma estreia avassaladora na bolsa, suas ações podem sofrer duros baques ao longo do tempo. Como muitos investidores apostam em planos ambiciosos para o futuro da empresa, qualquer decepção pode derrubar seu valor de mercado. Chase avalia que os investidores não estão olhando apenas para os resultados atuais da companhia. Quem aceita pagar US$ 135 (R$ 688,64) por ação está mirando em várias frentes de crescimento ao mesmo tempo.
- Starlink se tornou a principal fonte de receita da companhia, enquanto outros projetos passaram a fazer parte de sua estratégia de crescimento.
- xAI funciona como o braço de inteligência artificial da empresa, integrando o chatbot Grok aos dados da rede social X e à infraestrutura da Starlink.
Ainda assim, o analista avalia que o valor de mercado projetado é alto, mesmo em comparação com companhias que crescem rapidamente. Pelas contas dele, a avaliação equivale a cerca de 109 vezes toda a receita obtida pela empresa no ano passado. "É um ponto de partida excepcionalmente elevado para qualquer IPO de grande porte", diz.
Motivações para o IPO
Muitos analistas avaliam que esse era o caminho natural. Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e especialista em IA, afirma que a empresa chegou a um ponto em que suas ambições exigem um volume de recursos difícil de obter apenas por meio de rodadas privadas de investimento. Um IPO é a primeira oferta pública de uma empresa, na qual ela vende parte de suas ações e passa a ser negociada na bolsa, com o objetivo de captar recursos para expandir operações, investir em projetos ou reduzir dívidas.
Segundo Machado Dias, a receita gerada pela Starlink convive com projetos que exigem investimentos elevados e podem levar anos para dar retorno. "O Starship, os data centers orbitais e a guinada em direção à industrialização lunar demandam um tipo de capital que só o mercado público consegue oferecer."
Estratégia de longo prazo
Jan-Erik Asplund, cofundador da Sacra, aponta que a SpaceX usa os recursos gerados pelos lançamentos e pela Starlink para financiar uma estratégia que vai além da expansão de seus serviços atuais. Entre os projetos citados está a Terafab, uma fábrica de chips planejada para o Texas que poderá custar até US$ 119 bilhões (R$ 607 bilhões). A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla na qual a companhia busca controlar diferentes etapas de sua cadeia tecnológica.
Outro foco é a computação orbital, conceito que prevê o processamento de dados diretamente no espaço por meio de uma futura rede de satélites voltada para aplicações de IA. "A empresa utiliza o fluxo de caixa dos lançamentos e da Starlink para financiar sua visão de longo prazo", resume Asplund.
Três grandes apostas para o futuro
Franco Granda, analista sênior da PitchBook, reforça que a companhia precisa se apresentar como uma plataforma que reúne conectividade, transporte espacial e IA. Segundo ele, a aposta dos investidores se apoia em três grandes expectativas:
- Expandir a Starlink para além da internet via satélite: a tecnologia "direct-to-cell" permite conectar celulares comuns diretamente aos satélites, sem necessidade de antenas. O mercado pode alcançar 1,1 bilhão de usuários até 2040 e gerar mais de US$ 42 bilhões (R$ 214,2 bilhões) por ano.
- Tornar o acesso ao espaço mais barato: o Starship, com reutilização total, pode reduzir custos de lançamento em até 80%, ampliando a capacidade da Starlink e viabilizando novos negócios.
- Construir infraestrutura para IA: a xAI gerou receita de US$ 3,2 bilhões (R$ 16,3 bilhões) em 2025, mas registrou prejuízo operacional de US$ 6,3 bilhões (R$ 32,1 bilhões). Os gastos com infraestrutura consumiram mais de US$ 12,7 bilhões (R$ 64,8 bilhões) no período.
Para Granda, a avaliação trilionária da SpaceX está menos ligada aos resultados atuais e mais à expectativa de retorno desses projetos nos próximos anos. "O preço pode parecer caro olhando apenas para os números atuais, mas os investidores estão pagando hoje pela economia de 2030", resume.



