Inadimplência no campo dispara e leilões de terras crescem 30% no Brasil
Inadimplência no campo dispara e leilões de terras crescem 30%

A inadimplência no campo atingiu níveis recordes no Brasil, com quase um quinto dos empréstimos rurais em atraso, levando a um aumento expressivo nos leilões de propriedades rurais retomadas por credores. Dados compilados pela Reuters mostram que os leilões de imóveis rurais cresceram 30% em 2025, totalizando 14.219 propriedades.

Crise no campo: juros altos, clima adverso e queda nos preços dos grãos

Produtores e analistas apontam uma combinação de fatores para a crise: queda nos preços dos grãos, juros elevados, aumento dos custos dos insumos e eventos climáticos extremos. Esses elementos têm levado a falências e à perda de propriedades rurais em todo o país.

O Rio Grande do Sul é um dos estados mais afetados, especialmente após as enchentes catastróficas de 2024, associadas ao El Niño e às mudanças climáticas. Um estudo publicado em janeiro na revista NPJ Natural Hazards, da editora Nature, destacou a vulnerabilidade da região.

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Dívidas quadruplicam e inadimplência salta para 19,6%

Segundo dados do Banco Central, as dívidas com problemas de pagamento no crédito rural mais que quadruplicaram em dois anos, atingindo R$ 171,2 bilhões no início de 2025. A parcela de empréstimos em atraso subiu de 5,5% para 19,6% no mesmo período.

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, classificou o momento como "extremamente delicado". Em entrevista à Reuters, ele ressaltou a gravidade da situação.

Leilões de terras rurais disparam

Os credores intensificaram a execução de garantias, resultando em mais propriedades rurais levadas a leilão. Dados do site Leilão Imóvel mostram que o volume de leilões chegou a 14.219 em 2025, alta de 30% ante 2024. As retomadas extrajudiciais, mais rápidas, quase dobraram, somando 2.398 no ano passado.

André Figueiredo, cofundador do Leilão Imóvel, explicou que, embora a plataforma tenha ampliado o número de leiloeiras acompanhadas em 7%, as maiores leiloeiras compartilham dados desde 2019, indicando uma tendência clara de piora. "O volume de imóveis rurais aumentou bastante", afirmou, destacando que as regiões produtoras de soja e grãos foram as mais afetadas.

Recuperação judicial cresce 56%

Os pedidos de recuperação judicial no setor agrícola cresceram 56% em 2025, após mais que dobrarem em 2024, conforme dados da Serasa Experian. "Os juros ficaram muito altos e não se sabe onde vão ficar os preços das commodities. A chance de choques por problemas climáticos é muito alta", alertou Marcelo Pimenta, responsável pelo agronegócio na Serasa Experian.

Clima turbulento e perspectiva de super El Niño

Os produtores enfrentam dificuldades para se recuperar de choques recentes: clima adverso, queda nas exportações agrícolas (especialmente soja) e a taxa básica de juros, que subiu de 2% para 15% em cinco anos. A perspectiva de um "super El Niño" pode agravar ainda mais a produtividade das safras.

Um agricultor do Rio Grande do Sul, que preferiu não se identificar, relatou dificuldades com juros "impagáveis" após perdas climáticas. Um credor já tomou mais da metade da fazenda da família. "A mudança climática é expressiva, é evidente. Não estamos conseguindo produzir: uma hora por muita chuva, outra por muito sol", desabafou.

A alta nos preços dos fertilizantes durante a guerra no Irã também levou muitos agricultores a reduzir os planos de novos plantios, agravando o cenário de endividamento e perda de terras.

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