O 15.º Plano Quinquenal da China (2026–2030) elevou a segurança alimentar ao núcleo da estratégia nacional, ao lado da modernização agrícola, biotecnologia e diversificação de fontes de proteína. Desde a década de 1950, os planos quinquenais chineses orientam investimentos, crédito, pesquisa e políticas públicas. O tema repercutiu no agronegócio brasileiro, pois a China é o principal mercado para diversos produtos exportados pelo Brasil. A reação imediata foi defender a diversificação de mercados, mas a concentração atual decorreu do extraordinário crescimento da demanda chinesa, impulsionado pelo aumento da renda, urbanização e mudança nos hábitos alimentares.
Projeções da FAO e o desafio global
No passado, os estudos de planejamento alimentar concentravam-se nas projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os números continuam impressionantes: a população mundial deverá se aproximar de 10 bilhões de pessoas até 2050, exigindo um crescimento da produção agrícola entre 50% e 60%. A demanda por proteínas animais continuará aumentando, e o mundo precisará produzir mais alimentos. No entanto, a FAO nunca se dispôs a explicar se haverá renda nas populações carentes para adquirir esses alimentos. O desafio de produzir com menor custo permanece, e esse foi parte do sucesso brasileiro. Para o Brasil, seria necessário ao menos um plano para as próximas cinco semanas.
Primeiro desafio: recuperar a capacidade de produzir
O Plano Safra será anunciado em meio a uma combinação preocupante de fatores. O risco climático cresce, a possibilidade de um forte El Niño aumenta as incertezas, e o setor enfrenta uma crise de endividamento provocada pela combinação de juros reais incompatíveis com a atividade agropecuária, preços internacionais enfraquecidos e os efeitos ainda presentes da pandemia e de duas guerras. Chama atenção a questão do seguro rural. Sem seguro, as perdas climáticas não desaparecem; apenas mudam de endereço: saem das lavouras e passam para os balanços dos produtores, cooperativas, bancos e, mais cedo ou mais tarde, do próprio governo. Seguro rural não é privilégio, é infraestrutura financeira básica para uma atividade sujeita a riscos que nenhum produtor consegue controlar.
Segundo desafio: o custo do dinheiro
É impossível compreender a crise atual sem considerar os juros. Em março de 2021, a Selic estava em 2% ao ano; poucos anos depois, alcançou 15%, o maior patamar desde 2006. Nenhuma atividade produtiva atravessa mudança dessa magnitude sem consequências. Ao mesmo tempo, o setor passou por profunda transformação financeira. O crescimento das Cédulas de Produto Rural (CPRs) e de outras modalidades privadas ampliou o acesso a recursos, mas também a exposição ao custo do capital. O debate sobre o custo fiscal da atual renegociação concentra-se nos subsídios implícitos às taxas de juros, mas é inaceitável ignorar a origem do problema.
Terceiro desafio: produzir mais e melhor
China e FAO colocam a pesquisa no centro da discussão. No Brasil, o tema desapareceu do debate nacional. Escondida atrás do extraordinário sucesso do passado, a Embrapa perdeu a capacidade de apresentar ao país uma agenda clara para os próximos anos. A Embrapa continua reunindo pesquisadores de excelência e permanece como uma das instituições mais importantes da história econômica brasileira. O problema não está no passado, está no futuro. Quais serão as prioridades nacionais em genética, adaptação climática, agricultura digital, bioeconomia e produtividade sustentável? Quais resultados concretos pretendemos entregar ao campo nos próximos cinco anos? Não basta falar em recursos financeiros; é essencial enfrentar problemas de gestão.
Quarto desafio: infraestrutura
A produção brasileira de grãos atingiu 343 milhões de toneladas em 2025, mas a infraestrutura não acompanhou. Estradas, ferrovias, hidrovias, portos e armazéns seguem operando sob crescente pressão. Num ambiente de preços mais apertados, poucos reais por tonelada definem quem permanece competitivo. Os gargalos vão além do transporte: o país dispõe de aproximadamente 202 milhões de toneladas de capacidade estática para uma produção superior a 340 milhões. Seguimos convivendo com problemas que já deveriam ter sido resolvidos. A margem está cada vez mais na infraestrutura.
Quinto desafio: energia
A COP-30 foi incapaz de produzir uma estratégia brasileira clara para a transição energética. Enquanto o país sediava a principal conferência climática do mundo, os biocombustíveis permaneceram em segundo plano. Avançamos na questão do desmatamento, mas biocombustíveis também é clima. A recente escalada das tensões no Oriente Médio lembrou mais uma vez que petróleo e gás continuam ativos estratégicos da economia mundial. Poucos países possuem vantagens comparativas tão evidentes nos biocombustíveis. Construímos uma das matrizes de transporte mais limpas do planeta com etanol e biodiesel, mas avançamos lentamente em combustíveis sustentáveis para aviação e navegação. Não existe uma estratégia consistente para transformar liderança tecnológica em liderança global.
A China planeja cinco anos. O Brasil discute a próxima semana. Infelizmente, não temos sequer um plano quinzenal.



