Vereador Lórens Nogueira chora ao negar 'rachadinha' em depoimento
Vereador Lórens chora ao negar 'rachadinha' em depoimento

O vereador de Curitiba Lórens Nogueira (PP) foi filmado recebendo R$ 5,6 mil em dinheiro vivo de uma funcionária. Durante depoimento ao Ministério Público do Paraná (MP-PR), ele se emocionou e negou a prática de 'rachadinha', afirmando que o valor se referia a um empréstimo de R$ 12 mil feito em espécie.

"Eu, Lórens, fiz um empréstimo para ela, passei um valor para ela, e, desde então, eu venho sim cobrando, porque eu emprestei na amizade, por conhecer a família, por conhecer ela, então é alguém em quem a gente confia. Eu fiz um aporte de empréstimo para ela e, desde então, tenho cobrado constantemente para que ela me retorne esse valor", declarou o parlamentar.

O que é 'rachadinha'?

'Rachadinha' é o termo utilizado para descrever um esquema ilegal no qual servidores comissionados ou assessores de gabinetes públicos são obrigados a devolver parte de seus salários a políticos ou superiores hierárquicos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Justiça aceita denúncia

Na quarta-feira (10), o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) aceitou a denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) contra o vereador. Com isso, Lórens Nogueira se tornou réu pelo crime de concussão – quando um funcionário público exige, para si ou para outrem, vantagem indevida em razão da função. Os advogados do vereador informaram que ainda não foram notificados da decisão e que se manifestarão assim que tiverem conhecimento.

Natural de Curitiba, Lórens foi eleito vereador pela primeira vez nas eleições de 2024, com 4.727 votos.

Pedido de afastamento

Na denúncia, o MP-PR solicitou o afastamento de Lórens do cargo de vereador. A Justiça concedeu um prazo de 10 dias para a defesa se manifestar. Após esse período, deverá decidir sobre o afastamento. No fim de maio, a Câmara Municipal de Curitiba (CMC) admitiu a representação por quebra de decoro parlamentar contra o vereador. O processo investiga as denúncias de 'rachadinha' em seu gabinete e pode resultar na cassação do mandato.

A abertura do processo na Câmara ocorreu um dia após o parlamentar ser alvo de uma operação do Gaeco. As imagens foram exibidas no telão do plenário durante a sessão da CMC, antes da chegada de Lórens. Quando ele ocupou a cadeira, permaneceu em silêncio e não falou com a imprensa. Até então, Lórens presidia o Conselho de Ética da Câmara de Curitiba, mas pediu para deixar o cargo após a repercussão do caso.

Dinheiro vivo apreendido

A operação do Gaeco cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao vereador. Em um deles, a equipe encontrou uma mala com cerca de R$ 70 mil em dinheiro vivo e uma mochila com R$ 12 mil em envelopes. Em depoimento ao MP, o vereador afirmou que o dinheiro é fruto de economias que faz desde 2015, quando começou a atuar como assessor político.

Depoimento da servidora

A servidora que relatou ter repassado parte do salário ao vereador afirmou, em depoimento ao MP, que chegou a pedir ajuda financeira da família e até a fazer um empréstimo para conseguir entregar o dinheiro exigido pelo parlamentar. O g1 não identificará a testemunha.

"O meu último salário acabou que o banco bloqueou, e eu não tinha realmente de onde tirar essa parte de dinheiro para entregar para ele. Me senti pressionada [...] Eu tinha prazo de dois dias para arrumar o valor, que era aproximadamente R$ 6 mil", contou.

A servidora também disse que precisava participar de eventos promovidos pelo instituto presidido por Nogueira, inclusive aos fins de semana e feriados. “Você trabalha das 7h às 19h. [...] Não ganha meio de locomoção, vale-transporte ou gasolina, alimentação. Às vezes tem uma alimentação que ele dá lá mesmo, mas muitas vezes a gente acaba tendo que tirar de recurso próprio", afirmou.

Os investigadores apontam que o caso da servidora não era isolado e suspeitam que o esquema funcionava desde o início do mandato do vereador, envolvendo todos os 12 servidores nomeados por ele. Segundo o Ministério Público, em alguns casos, os funcionários tinham que repassar mais da metade dos salários ao parlamentar.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar