O empresário Lucas Nery, suspeito de comandar um esquema de pirâmide financeira que causou prejuízo de R$ 500 milhões a cerca de mil pessoas em Porto Ferreira (SP), foi preso na manhã desta segunda-feira (29) em Goiânia (GO). Nery estava foragido desde abril, quando desapareceu após realizar uma festa luxuosa com bebidas caras e ostentação. A prisão foi confirmada pela Polícia Civil.
Defesa alega presunção de inocência
O advogado de Lucas, Antonio Lu Filho, confirmou a prisão preventiva e afirmou que o cliente não foi condenado. "A Constituição Federal assegura a presunção de inocência a todo cidadão até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória", declarou. Ele acrescentou que a defesa possui documentos, argumentos e a versão integral de Lucas, que será apresentada ao juiz. "O caso não se encerra com esta prisão. Encerra-se quando uma sentença, fundada em provas e não em manchetes, for proferida com trânsito em julgado e ainda estamos muito longe disso".
Conforme apurado pela EPTV, afiliada da TV Globo, Lucas deve ser transferido de Goiânia para Porto Ferreira ainda nesta segunda-feira.
O golpe e as vítimas
O esquema prometia retorno financeiro vantajoso, de até 8% ao mês, o que atraiu rapidamente novos investidores. Uma das vítimas, que preferiu não se identificar, afirmou que teve prejuízo superior a R$ 300 mil. "Me deixei levar e acabei, na esperança de que receberia essas parcelas, eu acabei alocando o capital da minha empresa".
A advogada das vítimas, Thais Costa, explicou o mecanismo: "Ele tinha acesso a alguns trabalhadores, alguns créditos que as pessoas tinham direito, tinham dinheiro para receber da Justiça, por exemplo. E aí é possível a compra de créditos trabalhistas em que a pessoa paga um valor menor e a pessoa que seria beneficiada desse valor aceita receber um valor menor para receber antecipadamente".
O esquema começou a ruir quando os pagamentos atrasaram. "Na data prometida que ele faria o pagamento, que, no caso, foi também a data que ele sumiu, já não fez o pagamento e começou todo mundo com mensagem para cá, mensagem para lá no WhatsApp, todo mundo comentando com todo mundo que ele havia sumido", contou uma das vítimas.
Investigação e prisão do pai
De acordo com o delegado Alexandre, a estimativa é de cerca de mil vítimas. "Só dois integrantes da subpirâmide tinham aproximadamente 300 pessoas vinculadas na subpirâmide deles. O Lucas também tinha pessoas que investiam diretamente com ele". O pai de Lucas, o advogado Jorge Nery, já está preso suspeito de dar credibilidade ao golpe usando sindicatos falsos. "O Jorge, quando foi ouvido, ele exerceu o direito de manifestar-se apenas em juízo. Ele não ofertou nenhuma versão em relação aos fatos", acrescentou o delegado.
O delegado alertou sobre promessas vantajosas: "Não existe almoço grátis. Nesse caso, era um investimento cujo retorno era acima de 8% ao mês. Se nós levarmos em conta, não existe investimento lícito que seja capaz de proporcionar um retorno dessa magnitude".
O rastreamento do dinheiro é a parte mais complexa da investigação. Há suspeita de que R$ 500 milhões tenham sido repassados para contas no exterior e convertidos em criptomoedas. "Foi representado pelo bloqueio dos bens, imóveis, contas bancárias, veículos. Foi autorizado pelo Judiciário o bloqueio desses bens", disse Alexandre.
Defesa alega que Lucas também é vítima
À época da reportagem, o advogado de defesa de Lucas afirmou que o cliente é tão vítima quanto as outras pessoas lesadas. "O Lucas fez de tudo para honrar todos os pagamentos até abril, ou seja, até abril não tinha ninguém insatisfeito com o investimento, estava todo mundo recebendo, e isso é um investimento que já foi feito há pelo menos dois anos e, nesse período todo, todo mundo recebeu", disse Antônio. Ele afirmou que Lucas estava em local incerto por causa de ameaças. "Ele se encontra nessa situação por esse motivo. E a gente ressalta mais uma vez que estar foragido, hoje, no Brasil não é crime, é um direito natural de qualquer pessoa".
As vítimas agora tentam recomeçar. Uma delas afirmou: "Eu confio muito no trabalho da minha advogada. A gente está com todos os processos na Justiça, a gente já conseguiu o bloqueio de alguns bens. [...] Então eu confio muito nessa Justiça para receber".



