PF deflagra Operação Exchange contra lavagem de dinheiro do PCC; três foragidos
PF deflagra Operação Exchange; três foragidos por lavagem de dinheiro do PCC

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (3) a Operação Exchange, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada na lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Dos 11 alvos de prisão temporária, três seguem foragidos: Victor Henrique de Oliveira Shimada, Romany Cutolo Bonente, conhecido como "Roma", e Diego Lameiro Diz.

Quem são os foragidos

Victor Shimada é apontado pela PF como líder do esquema de lavagem de dinheiro investigado e foi alvo de sanções impostas pelos Estados Unidos por suspeita de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a PF, ele é empresário e foi classificado pelos EUA como "elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais". Ao lado de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, ele foi o primeiro brasileiro a sofrer sanções dos EUA após a classificação de Comando Vermelho e PCC como grupos terroristas internacionais. O governo Trump o acusa de lavar mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em recursos ilícitos gerados em várias cidades dos EUA, utilizando criptomoedas para transferir valores de volta ao Brasil em nome do PCC.

Romany Cutolo Bonente, conhecido como "Roma", é advogado e, segundo a PF, atuava como operador financeiro e intermediário de alto nível entre Victor Shimada e integrantes de organizações criminosas, como o PCC. A investigação também o aponta como gestor de conflitos envolvendo operações financeiras atribuídas ao grupo. Em um áudio citado na decisão judicial que autorizou a operação, Romany afirma que precisava enviar R$ 100 mil ao delegado Fábio Caipira, do Deic, ao tratar de cobranças relacionadas ao esquema investigado.

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Diego Lameiro Diz é apontado pela PF como operador financeiro do grupo investigado e responsável por dar suporte à lavagem de dinheiro por meio da constituição de empresas de fachada nos Estados Unidos e no Brasil. A investigação também afirma que ele participava da comercialização de alho produzido em Mendoza, na Argentina, atividade suspeita de ser utilizada para movimentar recursos da organização criminosa.

Antecipação da operação devido a sanções dos EUA

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta sexta-feira (3) que a sanção dos Estados Unidos imposta na última quarta-feira (1º) a pessoas e empresas brasileiras fez os policiais da corporação anteciparem a Operação Exchange. Segundo Andrei, o desfecho da operação poderia ter sido outro, caso a imposição da sanção pelos Estados Unidos não tivesse sido anunciada na quarta-feira.

Ao todo são 11 mandados de prisão temporária, e sete foram cumpridos até a última atualização desta reportagem. Entre os presos está Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, alvo de sanções dos EUA na quarta-feira (1º) por suposta ligação com o PCC. Segundo os EUA, Stella é parente de Shimada e atuou como sua secretária, intermediando a coleta de grandes quantias em dinheiro e fornecendo serviços logísticos essenciais para as operações de lavagem da rede. Ela não tem antecedentes criminais e nem responde a processos.

Outras medidas e bens sequestrados

Além dos mandados de prisão, foram expedidos 13 mandados de busca em endereços localizados na capital paulista, em Santos, em Praia Grande e em Santana de Parnaíba. Também foi determinado judicialmente o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante total de R$ 10,4 bilhões.

Em nota, Yuri Cruz, do escritório Marcelo Cruz Advocacia Criminal, que faz a defesa de Victor Shimada, informou que "tomou conhecimento, há instantes, da operação realizada pela Polícia Federal. Neste momento, entretanto, ainda não dispomos de acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas". "Nesse contexto, qualquer manifestação sobre os fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada. Tão logo tenha acesso aos autos e às informações oficiais, a defesa realizará a análise técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis." Em entrevista à TV Tribuna, afiliada da Globo, Cruz disse ainda que Shimada é um dos alvos de prisão temporária e deve analisar a possibilidade de se entregar à polícia: "Isso passa também por uma decisão pessoal, mas é mais uma das hipóteses a serem avaliadas."

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Conexão com o caso VaideBet

No Brasil, Victor Shimada aparece nas investigações que apuram o suposto desvio de recursos do contrato firmado entre Corinthians e VaideBet. De acordo com denúncia apresentada pelo Ministério Público e aceita pela Justiça, a Victory Trading manteve intensa movimentação financeira com a empresa Wave Intermediações e Tecnologias Ltda., apontada pelos investigadores como uma das empresas utilizadas para movimentar valores provenientes do esquema investigado. A apuração identificou uma cadeia financeira que inclui empresas pelas quais os recursos teriam passado após deixarem a conta do Corinthians. Segundo os autos, parte do fluxo analisado seguiu o caminho: Corinthians → Rede Social Media Design → Neoway → Wave → UJ Football Talent.

Em paralelo, investigadores apontaram transferências da Victory Trading para a UJ Football Talent, empresa citada em outras apurações policiais. A denúncia sustenta que Shimada teria atuado como operador financeiro de uma empresa utilizada, ao menos parcialmente, para ocultar e dissimular a origem de recursos. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por lavagem de dinheiro. Em janeiro de 2025, Shimada ficou brevemente em prisão domiciliar no Brasil em um processo com a Votorantim.

Em nota, o BV (antigo Banco Votorantim) informou que, "em agosto de 2024, identificou movimentações irregulares no âmbito de seus serviços de Banking as a Service (BaaS). O banco adotou imediatamente as medidas cabíveis, comunicando os fatos às autoridades competentes e colaborando ativamente com as investigações que culminaram com a condenação de um dos sancionados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos conforme lista divulgada hoje. Vale destacar que, na colaboração com as autoridades competentes, o BV atuou como assistente de acusação na ação penal".

Sanções dos EUA e contexto

As sanções foram formalizadas pelo Departamento do Tesouro norte-americano. Esta é a primeira rodada de sanções econômicas divulgadas pelo governo Trump contra alvos que acredita ter relação com a facção brasileira após ter classificado o PCC e o CV como grupos terroristas internacionais, em junho. No comunicado do Departamento do Tesouro, o governo Trump voltou a chamar o PCC de "maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental" e afirmou que a facção representa uma "ameaça significativa à segurança nacional dos EUA". Além disso, acusou o PCC de utilizar o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro.

O subsecretário norte-americano para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, afirmou no comunicado que o governo Trump está enfrentando a "crescente presença da geração de receitas ilícitas do Primeiro Comando da Capital dentro dos EUA". Com as sanções, os bens nos Estados Unidos dos alvos são bloqueados e qualquer empresa que pertença, direta ou indiretamente, em 50% ou mais, às pessoas punidas, também será bloqueada.