A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou nesta segunda-feira (29) a Operação Placebo, que investiga um esquema de fraude em orçamentos, entrega parcial de medicamentos, uso de empresas de fachada e fornecimento de remédios com suspeita de falsificação para pacientes com câncer. O empresário Lisandro Henriques Hermes, de São Gabriel, foi preso e é apontado como o principal articulador do grupo. As investigações começaram quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de falsificação ao analisar as embalagens do medicamento Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), usado no tratamento de câncer de mama.
Fraude com dinheiro público
Uma única compra do medicamento chegava a custar R$ 800 mil, pagos com recursos públicos bloqueados pela Justiça para garantir o tratamento. As embalagens apresentavam inconsistências, como erros de grafia. A polícia aponta a participação do oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, responsável pelos laudos médicos usados nas ações judiciais. Segundo o delegado Daniel Severo, cabia a ele a captação dos pacientes, encaminhando-os a advogados do esquema. "Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado", explica o delegado.
Operação Placebo
A operação cumpre 57 mandados de busca e um de prisão, tendo como alvo 15 pessoas e 14 empresas. O empresário Lisandro Henriques Hermes, segundo a polícia, controlava direta ou indiretamente empresas que participavam das concorrências, como a Licifarma e a LH Medicamentos. Ele negou as acusações, afirmando não ter relação com os advogados e o médico investigados, e disse desconhecer a suspeita de falsificação. Com ele, a polícia apreendeu dezenas de caixas com remédios, suplementos alimentares e cartelas de medicamentos sem identificação. Ele alegou que foram descartados por uma fábrica por controle de qualidade, mas não soube explicar por que a própria fábrica não fez o descarte. A polícia sustenta que ele usava sócios formais, conhecidos como "laranjas", para ocultar o verdadeiro controle dos negócios.
Advogados e médico investigados
Entre os investigados estão três advogados: Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner. "Esse núcleo jurídico acionava o núcleo empresarial. É uma articulação grande. O núcleo jurídico aciona o empresarial para fraudar a concorrência, ou seja, são só as farmácias ligadas a eles que ganham", detalhou o delegado. O oncologista e os advogados tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça, em medida cautelar. A investigação identificou 39 vítimas do esquema, sendo que sete faleceram durante o tratamento.
Anvisa e laboratório se manifestam
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou em fevereiro de 2026 a apreensão e proibiu a comercialização do lote 416466 do Enhertu, após a fabricante Daiichi Sankyo Brasil comunicar a existência de frascos com dimensões superiores ao padrão, descascamento nas tampas e divergências na coloração e no material utilizado no fechamento. O produto original tem tampa amarela com acabamento plástico, enquanto as unidades suspeitas apresentavam tampa metálica pintada de amarelo. A Anvisa orienta distribuidores, farmácias e hospitais a verificarem estoques e interromperem a circulação do lote. A Daiichi Sankyo Brasil informou que identificou unidades falsificadas de um lote específico (394373) e notificou as autoridades em junho de 2025, colaborando com as investigações. A empresa reforça que não houve alteração na fabricação de seus produtos regulares e orienta a compra apenas de distribuidores homologados.



