Índio do Buraco: corpo do último sobrevivente de tribo isolada segue na geladeira da Funai
Índio do Buraco: corpo do último sobrevivente segue na Funai

O corpo do último sobrevivente de uma tribo isolada, conhecido como 'Índio do Buraco', está armazenado nas câmaras frias da Fundação Nacional do Índio (Funai) desde 23 de agosto. O caso ganhou repercussão após a confirmação do sepultamento, ocorrida nesta sexta-feira, 4 de novembro, mas o corpo ainda não foi enterrado, aguardando decisão judicial e política.

Quem era o 'Índio do Buraco'

Descoberto em 1996 vagando pela floresta de Curumbiara, em Rondônia, ele era o último remanescente de sua tribo, que foi dizimada antes mesmo de ser identificada pela Funai. Por isso, não se sabe o nome da etnia nem do indivíduo. Todas as tentativas de comunicação fracassaram: ele não compreendia línguas regionais e reagia com flechas a qualquer aproximação. Seus hábitos eram peculiares, como cavar buracos nos acampamentos, o que lhe rendeu o apelido.

Em 1998, após mobilização de indigenistas e ativistas, a Terra Indígena Tanaru foi demarcada com 8.070 hectares, garantindo-lhe um território protegido. A Funai monitorava a área, identificando mais de 50 acampamentos, mas o contato direto foi raro e sempre hostil. Por 26 anos, ele viveu em isolamento absoluto, testemunhando a extinção de seu povo.

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A morte e a descoberta do corpo

Em 23 de agosto de 2022, funcionários da Funai encontraram o índio morto, deitado em sua rede e coberto com penas de aves. Não havia sinais de violência, confirmado por necropsia. Provavelmente ciente da morte iminente, ele se preparou. Por quase dois meses, o corpo permaneceu na rede até ser resgatado.

Nos últimos 26 anos, grande parte da floresta ao redor foi desmatada. A Terra Indígena Tanaru tornou-se uma das poucas áreas preservadas na região, gerando conflitos entre preservacionistas e ruralistas.

Disputa política e jurídica

O corpo está na geladeira da Funai enquanto dois grupos disputam seu destino. De um lado, ruralistas e setores que querem extinguir a reserva argumentam que, sem índios, ela perde sentido e deve ser destinada à agropecuária. De outro, indigenistas defendem que o enterro na própria terra caracteriza a área como ocupada por um povo ancestral, fortalecendo a proteção.

Segundo o jornalista Monte Reel, autor do livro 'The Last of the Tribe' (2010), o túmulo seria a única evidência material da existência da tribo. Para os que desejam desmatar, enterrá-lo em um cemitério local evitaria esse vínculo.

Em 3 de novembro, um juiz determinou que o índio seja enterrado no local onde foi encontrado. Resta saber se a Funai cumprirá a ordem.

O caso levanta uma questão mais ampla: que destino dar a reservas indígenas sem população? Especialistas alertam que extinguir terras indígenas pela ausência de índios pode incentivar posseiros a exterminar povos para justificar a revogação de reservas.

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