A Polícia Civil de Limeira (SP) concluiu inquérito que aponta que um acidente com um menino de nove anos, ocorrido em março, poderia ter servido de alerta para evitar a morte de Maria Eduarda de Freitas, de 21 anos, em um salto de rope jump na Ponte do Esqueleto, em 13 de junho. A investigação revelou que a organizadora do grupo Entrecordas, Evelyne dos Santos, orientou funcionários a apagar imagens gravadas por câmeras após ambos os acidentes.
Acidente anterior com criança
Três meses antes da tragédia, em março, uma falha no sistema de debreagem — mecanismo de freio da corda — quase matou um menino de nove anos. O garoto e uma menina de sete anos posaram para um vídeo com equipamentos do grupo. Luis Gustavo, funcionário da equipe que saltou junto com o menino, relatou o momento: "O garoto foi correndo, eu já fui correndo atrás. Ele pulou e eu pulei dando um mortal logo atrás. Eu não ouvi o garotinho, tipo, gritar o 'uhu', que ele sempre gritava... Eu comecei a ouvir algumas pessoas gritando o nome dele e, aí, quando eu olhei para o lado, ele estava no chão". O pai do menino também trabalhava no grupo e testemunhou o salto.
Morte de Maria Eduarda
Em 13 de junho, Maria Eduarda de Freitas, de 21 anos, foi lançada da ponte sem a corda de proteção presa ao corpo. Um vídeo gravado pelo celular da própria vítima confirmou a falha. Ela foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. O inquérito indiciou quatro pessoas por homicídio com dolo eventual (assumir o risco de matar): Evelyne dos Santos, apontada como chefe da equipe, além de Vitor de Freitas, Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff, que aparecem nas imagens arremessando a jovem.
Ocultação de provas
A investigação apontou tentativa de ocultação de provas. Três testemunhas disseram ter visto alguém retirar a câmera GoPro de Maria Eduarda logo após a queda. Luis Gustavo admitiu que recebeu ordens de Evelyne: "Ela falou: 'Gustavinho, a gente precisa. Traz a câmera, a gente precisa dessa câmera, a gente precisa apagar o vídeo.' Essas foram as palavras". Uma ex-funcionária, em áudio anexado ao inquérito, afirmou que Evelyne também pediu que fossem apagadas as imagens do acidente com o menino de nove anos, para evitar reação do pai da criança, que também trabalhava na equipe. Por isso, Evelyne foi indiciada também por fraude processual.
Operação clandestina
O relatório policial concluiu que os saltos "eram feitos com significativa desorganização operacional", com "ausência de isolamento adequado da área" e "elevado número de saltos em reduzido intervalo de tempo, o que potencializa falhas humanas e compromete a segurança". O grupo Entrecordas operava clandestinamente há mais de um ano, sem registro formal. A Ponte do Esqueleto, que pertence à União, teve o acesso bloqueado com cercas, valas e montes de terra após a tragédia.
Defesas
O advogado de Evelyne disse discordar do indiciamento e que apresentará teses no momento oportuno. A defesa de Vitor de Freitas contesta a tipificação de dolo eventual. Os advogados de Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff sustentam tratar-se de crime culposo (sem intenção de matar).



