Justiça de Ribeirão Preto marca audiências de esquema de roubo de joias de R$ 4 milhões
Justiça marca audiências de roubo de joias de R$ 4 milhões

A Justiça de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, definiu as datas das audiências com testemunhas e acusados de participação em um esquema de roubo de R$ 4 milhões em joias e outros objetos de valor. O caso ganhou notoriedade por envolver uma rede de receptação em três estados e um programa de televisão para a venda dos itens roubados.

Primeira audiência com delator

O primeiro a ser ouvido, na próxima quinta-feira, dia 11, é Luis Rinaldo da Silva, acusado de participação direta no roubo. Ele firmou um acordo de delação premiada com a Justiça. Em decisão expedida nesta semana, o juiz Guacy Sibille Leite manteve as prisões preventivas dos réus que atualmente estão presos e estabeleceu um cronograma para as audiências, que começam em junho e terminam em agosto, com o interrogatório dos acusados.

Cronograma das audiências

  • 11 de junho: Luis Rinaldo da Silva, acusado que firmou delação premiada com a Justiça;
  • 8 de julho: testemunhas de acusação;
  • 31 de julho: testemunhas de defesa dos réus;
  • 7 de agosto: testemunhas de defesa dos réus;
  • 13 de agosto: interrogatório dos réus.

Com uma rede de receptação que liga São Paulo, Minas Gerais e Paraná, a quadrilha foi alvo de uma primeira operação em setembro do ano passado, após ser investigada por invadir residências para roubar joias, com receptadores nos três estados.

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O roubo na Ribeirânia

Entre os crimes cometidos, segundo a Polícia Civil, está um assalto a uma casa no bairro Ribeirânia, zona leste da cidade, em 17 de maio. Criminosos armados invadiram o imóvel, onde estavam um casal de idosos, o filho e uma funcionária, e levaram 300 peças, incluindo um colar de ouro e diamantes, comprado há mais de 20 anos. A peça foi posteriormente reconhecida pelas vítimas enquanto era vendida ao vivo pelo programa "Mil e Uma Noites", do Paraná. Relógios de alto valor, aparelhos celulares e dinheiro também foram roubados. A família passou a acompanhar a programação e identificou outras peças roubadas sendo comercializadas. As vítimas compraram oito peças para confirmar a suspeita. Alguns dos acusados também são investigados por participação em um roubo dentro de um prédio no Centro de Ribeirão Preto.

Investigações e denúncias

As investigações começaram em 28 de maio do ano passado e levaram o Ministério Público a denunciar 15 pessoas por associação criminosa, adulteração de sinal identificador de veículo, roubo majorado e receptação qualificada. Além da identificação das joias roubadas sendo vendidas na TV, os agentes analisaram imagens de câmeras de segurança das imediações da residência das vítimas, rastrearam aparelhos celulares roubados, obtiveram denúncias anônimas e confirmaram com as vítimas quem eram os envolvidos por meio de reconhecimento facial.

As investigações também contaram com uma delação do acusado Luis Rinaldo da Silva, que em outubro do ano passado forneceu detalhes sobre o roubo, o modo de execução e a função de cada um dos envolvidos. As diligências levaram à apreensão de joias roubadas das vítimas, em Ribeirão Preto e na sede do programa de TV, em Curitiba, e de um Jeep Compass com placas clonadas usado pelos criminosos, além do cumprimento de mandados de prisão temporária e em flagrante. Entre os presos está Diego de Freitas, que confessou ter receptado e revendido as joias ao empresário Haig Hovsepian, de Minas Gerais, atualmente em prisão domiciliar, e por sua vez apontado como o responsável por encaminhar parte dessas joias para Paulo César Calluf, dono do programa "Mil e Uma Noites", no Paraná, que está foragido.

Como funcionava o esquema

No fim de novembro do ano passado, a denúncia do Ministério Público foi aceita pela Justiça, que determinou bloqueio de bens e a prisão preventiva dos acusados por diferentes formas de participação no crime. Segundo as denúncias, a organização criminosa funcionava com uma estrutura complexa e com divisão de tarefas, envolvendo diferentes núcleos, da execução do roubo à destinação final dos bens.

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Etapas do esquema

  • Planejamento do roubo: a quadrilha utilizava tecnologias, incluindo a plataforma "Rainha", para levantar informações sobre as vítimas e seu patrimônio, escolhendo alvos potenciais que ostentavam elevado patrimônio;
  • Reconhecimento do imóvel e arredores: alguns dos envolvidos fizeram um reconhecimento na casa e vizinhança antes de praticar o assalto, onde descobriram uma casa abandonada nos fundos da residência das vítimas para ingressar sem que a segurança percebesse a ação;
  • Veículo para o roubo: um Jeep Compass com placas adulteradas foi comprado para o transporte dos executores;
  • Base de apoio e ferramentas: um imóvel no Parque das Figueiras, em Ribeirão Preto, foi usado para o planejamento do crime. Posteriormente, outros imóveis foram usados para guardar armas e produtos do roubo. Além disso, ferramentas foram adquiridas em uma loja de construção para serem usadas no arrombamento dos portões da casa;
  • Monitoramento policial: os envolvidos tinham acesso à frequência da comunicação da Polícia Militar para monitorar as ações policiais, facilitando a fuga;
  • Execução e fuga: em 17 de maio de 2025, quatro indivíduos invadiram a residência na Ribeirânia. Um deles rendeu as vítimas com uma arma e as amarrou, enquanto os demais assaltantes reviraram os cômodos e obrigaram as vítimas a fornecer a senha do cofre; eles fugiram em Honda Fit, o Jeep Compass e um Polo, rumo à casa no Parque das Figueiras;
  • Rede de receptação: Segundo as denúncias, Diego de Freitas recebeu as joias roubadas e as vendeu para Haig Hovsepian, de Uberaba (MG), que, por sua vez, repassou as joias para Paulo César Calluf, proprietário do programa "Mil e Uma Noites" em Curitiba (PR). De acordo com o MP, ele usou o programa para leiloar as joias em rede nacional, emitindo notas e certificados de garantia para dar aparência de legalidade aos bens.

Quem são os acusados

Parte dos réus foi denunciada principalmente por associação criminosa armada e roubo majorado (com uso de arma de fogo e restrição de liberdade). São eles:

  • Thayna Yasmin Silva Porto: acusada de ser informante do grupo por ter proximidade com uma das vítimas e repassar detalhes sobre o patrimônio da família. Está presa preventivamente na Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto;
  • André Luiz Pereira Nunes: acusado de ser um dos que planejaram o assalto e monitoraram a ação nas imediações da residência. Está preso preventivamente por suspeita de participação em outro roubo;
  • Luís Rinaldo da Silva: acusado de recrutar outros membros e monitorar a execução do crime. Está preso preventivamente por outro roubo e firmou acordo de delação com a Justiça;
  • Gustavo Della Rosa Brandamento: acusado de levantar informações sobre as vítimas e o patrimônio delas. Já estava preso por outro crime;
  • Leonardo Della Rosa Brandamento: acusado de levantar informações sobre as vítimas e também pela execução direta do roubo. Já estava preso por outro crime;
  • Welker dos Santos Ferreira de Matos: acusado de ser o homem que rendeu as vítimas com arma de fogo na casa da Ribeirânia. Já estava preso para cumprimento de pena em outro processo;
  • Leandro Gomes de Araújo: acusado de ser um dos que entraram na casa para roubar a família. Já estava preso preventivamente por outro roubo;
  • João Alves Correia Junior: acusado de dar apoio ao grupo aguardando do lado de fora da casa durante o assalto. Já estava em prisão temporária por outro crime;
  • Adriano Prates Merice: acusado de providenciar, ao custo de R$ 15 mil, o Jeep Compass com placas clonadas usado no crime. Já estava preso preventivamente por outro roubo;
  • Washington Gustavo de Lima Pereira: acusado de disponibilizar imóveis para o planejamento do crime e para esconder as armas e o produto do roubo. Teve prisão preventiva decretada;
  • Wellington Antonio Prates Caetano: acusado de pagar executores do roubo. Já estava preso preventivamente por outro roubo.

Outra parte dos réus foi denunciada por associação criminosa e receptação qualificada. São eles:

  • Diego de Freitas: acusado de ser o negociador das joias roubadas por R$ 800 mil. Já estava preso preventivamente por outro roubo;
  • Emerson dos Santos de Jesus: acusado de ser intermediário entre os ladrões e o receptador. É considerado foragido;
  • Haig Hovsepian: acusado de ser o receptador das joias em Minas Gerais, ao adquiri-las de Diego. Teve a prisão preventiva convertida em domiciliar;
  • Paulo César Calluf: dono do "1001 Noites", acusado de vender as joias roubadas em leilões na TV. É considerado foragido.

O que dizem os acusados

A defesa de Luis Rinaldo da Silva, acusado de participação no roubo e que firmou um acordo de delação premiada com a Justiça, informou que, neste momento, não irá se manifestar sobre os fatos. "O caso encontra-se submetido à apreciação das autoridades competentes, razão pela qual qualquer esclarecimento será prestado exclusivamente nos autos do processo, no momento oportuno", comunicou.

Um advogado que representa Diego de Freitas disse que ele não vai se manifestar. A defesa de André Luis Pereira Nunes disse que ele é inocente e que a delação apresentada no processo é mentirosa. O advogado Luis Felipe Perrone, que defende Emerson dos Santos de Jesus, informou que o acusado nega envolvimento nos fatos e alega ser inocente. "Até o presente momento, a defesa de Emerson não teve conhecimento de qualquer prova concreta que demonstre sua participação nos fatos investigados, razão pela qual acompanhará atentamente todos os atos processuais e adotará as medidas cabíveis para assegurar o contraditório, a ampla defesa e a verdade real."

Julia Cintra Romas, advogada de Gustavo Della Rosa Brandamento, informou que as informações prestadas na delação de Luis Rinaldo contra seu cliente foram motivadas por conveniência, porque eles tinham uma relação marcada por animosidade e briga. José Augusto Aparecido Ferraz, que atua na defesa de Adriano Prates Merice, informou que o réu é totalmente inocente e que a delação feita o mencionando falta com a verdade. "Adriano conseguirá provar que foi envolvido nesses crimes injustamente."

O g1 também contatou um advogado habilitado para todos os réus, mas não obteve resposta até a última atualização desta notícia.