O juiz titular da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa, Marcello Rubioli, determinou a prisão da cúpula do Instituto Rio Metrópole (IRM), acusada de desviar R$ 86 milhões em contratos. Em tom incisivo, o magistrado afirmou: “O Estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”. Criado para formular políticas de integração em setores essenciais como saneamento e mobilidade, o IRM foi capturado por uma organização criminosa e transformado em uma máquina de desvio de recursos, segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ).
Operação do Gaesf prende seis suspeitos
Entre os seis presos está o presidente da autarquia, Davi Perini Vermelho, conhecido como Didê. A operação do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf) do MPRJ dizimou a direção do instituto. A investigação chegou até Caroline Soares Barros, apelidada de “Mulher da Mala”, fiscal de contratos do IRM. Também foram presos Marcelo Lopes da Silva — atual procurador-geral da autarquia, ex-procurador-geral do Estado e ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico — e Amanda Íthala Santos da Paschoa, outra fiscal de contratos.
Nepotismo e vínculo familiar
Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos do Rio Metrópole e integrante da Comissão Técnica de Licitação, foi preso como articulador do direcionamento das licitações. Ele é pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL), que não é alvo da operação. Para o MPRJ, o vínculo familiar “viola expressamente” o decreto que proíbe o nepotismo na administração pública estadual. Maurício também é sogro de Amanda Íthala, de acordo com a denúncia. Outro preso é Franquis Dias Nepomuceno, delegado da Polícia Civil e diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do instituto.
Esquema de fraudes e lavagem de dinheiro
Foram denunciadas 11 pessoas por organização criminosa, corrupção passiva, fraude em licitação e contratações, além de lavagem de dinheiro. O MPRJ afirma que os seis presos ocuparam cargos estratégicos no IRM para fraudar licitações, dar aparência de legalidade aos contratos, impedir a fiscalização e garantir o fluxo de recursos desviados, convertendo a autarquia em um “instrumento de enriquecimento privado”.
Procurador-geral critica 'antros de corrupção'
Em entrevista coletiva, o procurador-geral de Justiça do Rio, Antônio José Campos Moreira, destacou que o esquema é um retrato dos “antros de corrupção” criados dentro das estruturas do governo. — Isso talvez explique a situação de dificuldade financeira pela qual o nosso estado passa há décadas: inúmeras estruturas do estado, órgãos que deveriam prestar serviços ao cidadão, foram cooptados por delinquentes e marginais — afirmou.
Desvio de R$ 86 milhões e 'Mulher da Mala'
Os recursos públicos teriam sido desviados de contratos firmados entre julho de 2022 e maio de 2026. Segundo o MPRJ, valores pagos a duas empresas — Engeconsult Consultores Técnicos Ltda. e R. Peotta Engenharia e Consultoria Ltda. — eram posteriormente transferidos para a conta do Brazilian Institute of Organics (Instituto BIO), presidido por Caroline Soares Barros. Depois, o dinheiro era repassado para a conta pessoal de Carolina, que fazia saques em espécie: foram 13, entre maio de 2025 e janeiro de 2026, que somaram R$ 3,02 milhões. Por isso, foi chamada pelo MPRJ de “Mulher da Mala”. A promotora de Justiça Roberta Jorio explicou: — A gente teve contratos fraudulentos que foram celebrados com o Rio Metrópole, com fraude tanto na licitação quanto na fiscalização de sua execução. Posteriormente, houve a celebração de contratos fictícios entre essas empresas e o Instituto BIO.
Instituto BIO: escola de bioculinária sem relação com metrópole
Nas redes sociais, o Instituto Bio é apresentado como uma escola de bioculinária que atua na formação de biochefs. Delcio Alonso, coordenador do Gaesf/MPRJ, comentou: — Não faz sentido, e a perplexidade é de todos, que um instituto de desenvolvimento metropolitano tenha contrato com uma ONG desse tipo, os objetos não casam.
Governo do Rio e defesas
A presidência do IRM tem mandato fixo de quatro anos, e o atual iria até dezembro deste ano. O governo do estado informou que, ao constatar “indícios de irregularidades nos contratos” do órgão, acionou o Ministério Público. A Engeconsult afirmou que “desconhece o teor das investigações” e negou qualquer irregularidade. O GLOBO não encontrou as defesas dos outros citados.



