A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga suspeitas de um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro em creches conveniadas à Prefeitura do Rio e ligadas à vereadora Gigi Castilho (PL) e ao seu marido, Luciano Castilho. O RJ2 teve acesso a novos depoimentos do inquérito que indicam a falsificação de contrato de aluguel e a existência de 'alunos fantasmas' para manter o repasse de verbas públicas.
Fraudes financeiras e contratos falsos
Em junho do ano passado, o RJ2 mostrou que as unidades das creches ligadas à Gigi Castilho e ao marido usaram cerca de R$ 1,7 milhão para contratar empresas — como padarias, hortifrútis e confecções de roupas — que pertenciam a parentes ou pessoas próximas a eles. Muitas dessas empresas sequer existiam nos endereços informados à Receita Federal. Em novembro, Gigi Castilho foi alvo de uma operação de busca e apreensão da polícia. No mês seguinte, a Prefeitura do Rio suspendeu os convênios com as creches comunitárias. Desde 2019, as instituições de ensino receberam R$ 72 milhões dos cofres públicos para atender alunos da rede municipal.
Aluguel fantasma em Guaratiba
Um dos pontos centrais da investigação da Delegacia de Defraudações envolve a Unidade 7 da Creche Deus é Fiel, em Guaratiba, na Zona Oeste da cidade. Somente entre 2022 e 2023, a prestação de contas enviada pela própria creche à Secretaria Municipal de Educação registrou gastos de R$ 223 mil com o aluguel do imóvel. No entanto, a suposta locadora que aparece no contrato, Vanessa de Oliveira Monteiro, disse à polícia que nunca foi dona do imóvel nem recebeu dinheiro algum. Vanessa, que trabalhou como assistente administrativa na creche, disse que assinava pilhas de documentos sem ler. Ela suspeita que a assinatura tenha sido falsificada ou colhida em documentos com data futura por Anderson de Oliveira Nascimento, atual representante legal das creches Deus é Fiel. Nas prestações de contas da creche, somente um recibo de aluguel foi encontrado, e ele foi assinado por uma terceira pessoa, e não por Vanessa.
Alunos fantasmas e coação de funcionários
Ex-funcionários ouvidos pela Delegacia de Defraudações revelaram que havia uma orientação sistemática para fraudar a lista de presença. Nomes de crianças que já não estudavam mais nas unidades continuavam nas listas oficiais para garantir o repasse de verbas da prefeitura. Professores eram instruídos a trocar identidades nos diários de classe para encobrir as ausências. Além das fraudes financeiras, os depoimentos detalham um esquema de coação: celulares eram recolhidos durante reuniões a portas fechadas e funcionários eram obrigados a participar de eventos eleitorais, distribuir material de campanha e pedir votos para Gigi Castilho aos pais dos alunos.
Defesa e desdobramentos
A vereadora Gigi Castilho negou, em depoimento à polícia, qualquer conhecimento sobre fraudes ou irregularidades nos contratos de aluguel. Ela afirmou que sua função nas creches era estritamente pedagógica. Sobre as denúncias de coação, a parlamentar declarou que o apoio político dos funcionários era voluntário e negou qualquer tipo de pressão. O marido da vereadora, Luciano Castilho, fundador das instituições, não compareceu para depor quando intimado. Anderson de Oliveira Nascimento, atual representante legal das creches, permaneceu em silêncio. Sem os contratos com a prefeitura desde o fim do ano passado, atualmente a creche em Guaratiba teve a fachada pintada e as placas de identificação foram removidas.
O que dizem os citados
Em nota, o advogado Marcio Delambert, que defende Gigi Castilho e o marido dela, Luciano Castilho, declarou que 'a vereadora não tinha qualquer relação administrativa ou de gestão das creches, em especial sobre registros de alunos ou contratos de pessoas e fornecedores. Gigi Castilho nunca participou ou pediu para realizar eventos eleitorais, seja com funcionários ou pais de alunos'. A nota diz ainda que 'a sra. Vanessa é investigada e nos autos se destaca a existência de depoimentos fantasiosos. O segredo de justiça foi decretado justamente para impedir a exploração política indevida do caso'. Vanessa de Oliveira Monteiro e Anderson de Oliveira Nascimento não se manifestaram.



