A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) decidiu desativar o alojamento estudantil do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), localizado no campus de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em função do aumento da violência urbana armada na região. A medida afeta 35 estudantes de pós-graduação de diversas unidades da Fiocruz. A instituição oferecerá um auxílio financeiro mensal de R$ 800 por 12 meses, prorrogável por igual período, para custeio de moradia. No entanto, os estudantes se mobilizam contra a decisão, que consideram unilateral e repentina.
Motivação e plano de desocupação
Em nota, a Fiocruz afirmou que, ao longo dos últimos meses, tem acompanhado o agravamento do cenário de violência urbana armada no entorno do alojamento. Considerando a evolução desse cenário e o consequente aumento do risco à vida e à integridade física dos cerca de 30 estudantes atualmente residentes, foi instaurado um plano de desocupação gradual. A instituição informou que o processo será realizado com acolhimento, espaços de escuta e orientação, buscando garantir a continuidade das atividades acadêmicas. O Conselho Deliberativo da Fiocruz acompanhará tanto a implementação da medida quanto a evolução do cenário de segurança.
Reação dos estudantes
Os estudantes, oriundos de diversas regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Centro-Oeste) e de países como Chile, Colômbia, Guiné-Bissau e Moçambique, afirmam que a decisão foi tomada sem consulta prévia. Eles reivindicam a manutenção do alojamento e criticam o valor do auxílio, considerado insuficiente para viver no Rio de Janeiro. Em carta enviada à vice-presidência da Fiocruz, os pesquisadores pedem a suspensão imediata da descontinuidade do alojamento até que alternativas viáveis sejam discutidas coletivamente. O documento, a que O GLOBO teve acesso, destaca que a medida gerou intenso sofrimento, crises de ansiedade e pânico entre os moradores. "Entre nós, há estudantes negros, indígenas, LGBTQIAPN+ e integrantes de outros grupos historicamente sub-representados na educação superior. Nós não possuímos familiares ou qualquer rede de apoio no Rio de Janeiro e dependemos do alojamento para dar continuidade às atividades acadêmicas", diz trecho da carta.
Em reunião na última sexta-feira, a Fiocruz manteve a decisão. Segundo os estudantes, o encontro foi "acalorado" e sem respostas concretas. Um dos moradores afirmou que o alojamento fica próximo de comunidades e que escutam tiros à noite, mas negou que a milícia tenha dado ordem para deixarem o local: "Isso nunca aconteceu. Nunca recebemos ameaça de ninguém."
Contexto de violência na Zona Sudoeste
A região de Curicica e da Grande Jacarepaguá, historicamente dominada por milícias, tornou-se palco de guerra de expansão do Comando Vermelho (CV). Em resposta, grupos milicianos, enfraquecidos por prisões, têm firmado alianças com o Terceiro Comando Puro (TCP) para tentar expulsar o CV. O CRPHF fica na Estrada de Curicica, próximo a comunidades como Vila Sapê e Dois Irmãos, pontos centrais dos conflitos. A Polícia Militar informa que o 18º BPM (Jacarepaguá) realiza ações planejadas e intensifica o policiamento na região com viaturas, motopatrulhas e policiais do Regime Adicional de Serviço.
Esforços de adaptação da Fiocruz
A Fiocruz, com 126 anos de história, tem se adaptado à violência armada no Rio. Em janeiro de 2025, durante uma operação policial no Complexo de Manguinhos, um projétil atingiu uma janela da unidade e uma funcionária foi ferida por estilhaços. A recorrência desses eventos levou a instituição a reforçar um protocolo de segurança para evacuar os mais de 200 prédios do campus em casos de confrontos armados. Em novembro de 2025, o protocolo foi acionado durante uma operação no Complexo da Maré, quando uma criança de 12 anos foi baleada dentro de uma escola e uma sala da UFRJ foi atingida por um disparo.



