Indiciamento de quatro pessoas na segunda fase da Operação Carrasco
A 3ª Delegacia de Polícia de Canoas concluiu a segunda fase da Operação Carrasco, que investiga um esquema de maus-tratos a animais, estelionato por meio de campanhas de arrecadação nas redes sociais e outros crimes. O inquérito foi remetido à Justiça na quarta-feira (24). Quatro pessoas foram indiciadas, incluindo a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas, Paula Lopes, que já estava presa preventivamente.
Paula Lopes foi indiciada por maus-tratos, estelionato, associação criminosa e violação de sigilo funcional. Segundo a delegada Luciane Bertoletti, Paula "transformou a atividade de resgate de animais em uma fonte de lucro, arrecadando dinheiro com casos de animais extremamente feridos nas redes sociais". O marido dela, Marcelo Vieira, foi indiciado por associação criminosa, e a veterinária Tainara Harth, por maus-tratos e associação criminosa. Ambos já haviam sido indiciados na primeira fase da operação.
Policial civil envolvida na violação de sigilo
Um nome que ainda não havia vindo a público é o da policial civil Mari da Cunha Menezes, lotada no Cartório dos Animais da 15ª Delegacia de Polícia. Ela foi indiciada por violação de sigilo funcional. Segundo a investigação, Mari teria realizado pesquisas de dados sigilosos para Paula e auxiliado a retirar a guarda de animais com laudos falsos.
A principal prova contra a policial é um áudio trocado com Paula Lopes. Na gravação, obtida a partir da extração de dados celulares na primeira fase da operação, Mari orienta como poderia ser produzido um exame laboratorial para justificar a retirada de um animal de seu tutor. "Tira o sangue de um bicho que tá mal, me leva para um laboratório e aí, com o nome dele, me apresenta esse exame lá. Não te disse isso, nunca", declarou Mari no áudio obtido pela polícia.
O objetivo, de acordo com a polícia, seria retirar o animal do antigo responsável e, posteriormente, utilizar o caso para arrecadar recursos nas redes sociais. A proximidade entre Mari e Paula era pública e aparecia com frequência nas redes sociais. A ex-secretária era vista em ações policiais organizadas pela delegacia onde Mari estava lotada. Apesar da conclusão das investigações, a policial não foi afastada do cargo.
Esquema de eutanásias forçadas e arrecadação
A polícia afirma que Paula priorizava levar animais sem perspectiva de tratamento para procedimentos de eutanásia, utilizando a repercussão dos casos para arrecadar dinheiro em campanhas virtuais. Uma das principais provas é a campanha de arrecadação feita após a morte de uma cadela chamada Pedrita. Mensagens obtidas durante a investigação mostram que Paula forçava a realização de eutanásias para explorar a comoção gerada pelos casos.
Outra evidência considerada decisiva foi a análise da movimentação financeira da investigada. "Ela fazia de ser protetora um meio de vida, lucrava com a comoção que o bicho causava. Em um período de seis meses, movimentou quase R$ 700 mil, com vaquinhas de cerca de 14 mil pessoas", afirmou a delegada Luciane Bertoletti.
Veterinário não foi indiciado
Apesar das prisões e buscas realizadas durante a investigação, os demais médicos-veterinários investigados não foram indiciados. De acordo com a delegada, a investigação concluiu que não havia um núcleo organizado de outros veterinários atuando de forma conjunta com Paula Lopes. "Não ficou claramente comprovado que existia um núcleo de outros veterinários para a prática de crimes. Um profissional não sabia do outro. A Paula e o Marcelo usavam veterinários de maneira distinta, não era um grupo unido com união de esforços. Por isso, a associação não fica configurada."
Embora a investigação tenha reunido conversas em que Paula pressionava profissionais pela realização de eutanásias, cada veterinário apresentou elementos que justificaram tecnicamente sua atuação. O veterinário Marcus Vinicius Jenisch, preso durante a primeira fase da operação, conseguiu liberdade por meio de habeas corpus e não foi indiciado.
Situação atual dos investigados
Atualmente, apenas Paula Lopes permanece presa preventivamente, na Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba. A veterinária Tainara Harth obteve habeas corpus para tratamento de saúde. A investigação segue agora para o Ministério Público, que decidirá se denuncia, pede mais investigações ou arquiva o caso. O g1 procurou as defesas dos investigados e aguarda manifestação.



