EUA sancionam brasileiros ligados ao PCC; cooperação com Brasil esfriou
EUA sancionam brasileiros do PCC; cooperação esfriou

As sanções impostas pelos Estados Unidos a dois cidadãos brasileiros supostamente vinculados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) poderiam ter sido mais eficazes se a cooperação técnica entre os dois países não tivesse passado por um processo de "esfriamento", segundo assessores do governo brasileiro. A administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende usar o episódio para convencer a equipe do presidente norte-americano Donald Trump sobre a importância de manter a colaboração entre órgãos dos dois países.

Cooperação técnica em declínio

De acordo com assessores presidenciais, a cooperação técnica no combate ao crime organizado era considerada "muito boa", mas sofreu um esfriamento durante o governo Trump, antes mesmo da decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida foi anunciada no fim de maio pelo Departamento de Estado dos EUA, que argumentou que a atuação das facções ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da região e os Estados Unidos.

A determinação, em vigor desde junho, contrariou os pedidos do governo federal e abriu espaço para ações mais duras e unilaterais dos EUA, como sanções a cidadãos e empresas brasileiras e, em último caso, intervenção direta no território nacional.

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Trocas de comando e intensificação do esfriamento

O esfriamento começou após mudanças de comando nos EUA, especialmente no Departamento de Justiça, com a chegada de pessoas mais alinhadas à linha ideológica do secretário de Estado Marco Rubio. Intensificou-se depois da classificação das organizações criminosas brasileiras como terroristas, no início de junho.

O governo brasileiro queixa-se de não ter recebido nenhum pedido de cooperação internacional antes das sanções contra o casal Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. "Não recebemos nenhum tipo de pedido de cooperação internacional neste caso", afirmou um assessor presidencial, o que não acontecia antes. Se tivesse havido pedido, o Brasil poderia ter adotado medidas internas, como bloqueio de contas.

Proposta de cooperação sem resposta

O governo brasileiro vai insistir na proposta de intensificar, e não interromper, a cooperação entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado. O presidente Lula formalizou a proposta em encontro com Trump, mas até hoje não recebeu resposta. Em relação à operação de 1º de outubro, a equipe de Lula destaca que ela não teve grandes impactos no Brasil, mas teme efeitos secundários, como punição de bancos que mantenham relações financeiras com os sancionados.

Sanções contra brasileiros e empresas

O governo Trump anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas baseadas no Brasil e uma empresa portuguesa por suposta ligação com o PCC. As sanções foram formalizadas pelo Departamento do Tesouro norte-americano. Os brasileiros sancionados são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. As empresas sancionadas incluem Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (Portugal).

Esta é a primeira rodada de sanções econômicas do governo Trump contra alvos ligados à facção brasileira após a classificação do PCC e do CV como grupos terroristas internacionais em junho. Com as sanções, os bens nos EUA dos alvos são bloqueados.

Acusações dos EUA

No comunicado, o Departamento do Tesouro chamou o PCC de "maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental" e afirmou que a facção representa "ameaça significativa à segurança nacional dos EUA", acusando-a de usar o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro. Segundo os EUA, Victor, Stella e as três empresas citadas integrariam uma rede internacional de lavagem de dinheiro do PCC, investigada na Flórida. Outros seis acusados foram presos em janeiro no estado.

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Victor Shimada foi apontado como "elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais", acusado de lavar mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em recursos ilícitos gerados em várias cidades dos EUA, utilizando criptomoedas para transferir valores ao Brasil em nome do PCC. Ele também foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo em julho de 2025 por lavagem de dinheiro no escândalo da VaideBet, ex-patrocinadora do Corinthians. Os EUA citaram que a Victory Trading foi usada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro, sem mencionar o nome do time.

Stella Stefanie, parente de Shimada, atuou como secretária e intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro, fornecendo serviços logísticos essenciais para as operações de lavagem. O subsecretário norte-americano para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, afirmou que o governo Trump está enfrentando a "crescente presença da geração de receitas ilícitas do Primeiro Comando da Capital dentro dos EUA".