O avanço da disputa entre milicianos e traficantes por territórios no Rio de Janeiro levou as forças de segurança a adotar uma estratégia de ocupação gradual de comunidades para conter a escalada da violência. Segundo o governador em exercício do Rio, desembargador Ricardo Couto, a presença do Estado é indispensável para evitar que áreas dominadas por grupos criminosos se transformem em "terra de ninguém".
Estratégia de ocupação gradual
A atuação inclui incursões planejadas em comunidades rivais para enfraquecer as organizações criminosas, reduzir confrontos e ampliar as prisões. Couto explicou que a polícia começou a entrar em comunidades onde os comandos criminosos estão presentes, forçando-os a recuar para manter seus territórios. "Começamos a efetuar prisões, e o confronto reduziu. Entramos em outras comunidades (dos rivais) de maneira silenciosa. Dessa forma, esgotamos a força deles", afirmou.
Desafios políticos e gestão
Em entrevista ao EXTRA, Couto falou sobre os desafios que encontrou ao chegar, há 100 dias, no Palácio Guanabara. Questionado sobre pressão política, disse que não tem sofrido muita, talvez por ser presidente do tribunal. "O apoio popular está sendo fundamental para mostrar uma consciência política naqueles que pretendem o êxito no pleito eleitoral", declarou.
Um dos casos citados foi a transferência do programa Segurança Presente para a Polícia Militar. Couto defendeu que o programa deve estar com quem tem know-how em segurança, e não na Casa Civil, como defendia o ex-governador. "É uma visão dele que eu posso respeitar, mas não concordo nessa parte", disse.
Relação com o Legislativo e contas do Judiciário
Couto afirmou que sua relação com a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) é institucional e que o presidente Douglas Ruas tem sido correto e leal. Sobre a convocação para prestar esclarecimentos sobre as contas do Judiciário, Couto informou que não compareceu, pois "não cabe a convocação do presidente do Judiciário". A análise das contas da Justiça é feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Tribunal de Contas do Estado.
Desafios fiscais e combate a fantasmas
O maior desafio, segundo Couto, está na área da Fazenda. O orçamento prevê saldo negativo de R$ 19,5 bilhões no fim do ano. Para reduzir esse valor, a meta é de R$ 5 bilhões. Entre as medidas, estão a adesão ao Propag (programa federal de renegociação de dívidas) e a renegociação de empréstimos privados com o Banco Mundial para obter juros menores.
Couto também destacou a identificação de servidores "fantasmas" — estima-se que haja até seis mil exonerados. "A visão precisa ser técnica, com menos politização. É preciso trazer servidores sem concurso público apenas quando há necessidade efetiva", afirmou. Os dados estão sendo remetidos ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas para apuração.
Redução de secretarias e transparência
Nos próximos dias, Couto pretende reduzir o número de secretarias de 35 para 22 ou 23, dentro de um projeto de gestão. A divulgação das pastas a serem extintas será feita com cautela para evitar desgaste político. Além disso, ele planeja fortalecer a vinculação de verbas orçamentárias às suas finalidades e criar mecanismos de controle, como prazos para prestação de contas.
Couto afirmou que sua gestão é temporária, até o julgamento do STF em 19 de agosto sobre a escolha do governador do mandato-tampão. Ele estima ter pelo menos 60 dias para dar continuidade ao trabalho e deixar um legado de gestão técnica e despolitizada.



