Um documento interno da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), obtido pelo g1, revela que o deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador Ulisses Marins (União Brasil) tentaram interferir nas operações para impedir a demolição de imóveis de luxo do Terceiro Comando Puro (TCP) — um deles é o “resort” do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefão da facção. Os parlamentares são alvos de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira (18).
Pressões e vazamentos
De acordo com o relatório, a ação, que estava sendo planejada desde novembro de 2023 em conjunto com o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) e a Polícia Militar, foi adiada mais de uma vez após vazamento de informações e pressões políticas. Ainda segundo o documento, a demolição de imóveis apontados como base de atuação da facção Terceiro Comando Puro (TCP) estava inicialmente marcada para 14 de dezembro de 2023. Dias antes da operação, porém, o Ministério Público foi informado de que Val Ceasa e Ulisses Marins teriam procurado o 16º BPM (Olaria) afirmando que os imóveis seriam usados para projetos sociais voltados a crianças e idosos.
Suspeita de vazamento
O documento detalha que os parlamentares tinham conhecimento prévio das construções que seriam alvo da operação, apesar de o planejamento estar sob sigilo. A suspeita levantada pelo próprio Ministério Público é de que houve vazamento de informação. O caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) para apuração. O relatório cita ainda que, em 12 de dezembro de 2023, o ex-vereador Ulisses Marins entrou em contato com o secretário de Ordem Pública, Brenno Carnevale, informando que ele e o deputado estadual conhecido como “Val Ceasa” haviam estado com integrantes da Polícia Militar. Na ocasião, teriam sido informados de que não haveria apoio operacional para a demolição naquela semana.
Operação cancelada por falta de segurança
Sem garantias de segurança — já que a região integra o chamado Complexo de Israel, dominado por criminosos armados —, a operação foi cancelada por falta de apoio da PM. As investigações indicam que os imóveis estavam ligados à atuação do TCP em áreas como Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta e Cordovil. Relatórios técnicos da prefeitura e da Polícia Militar apontavam a ilegalidade das construções e o uso das estruturas pela facção.
Novas tentativas e resistência armada
Após o cancelamento, novas tentativas de demolição foram feitas ao longo de 2024, mas voltaram a ser interrompidas. Em outubro daquele ano, uma operação policial na região terminou com três mortos e evidenciou a forte resistência armada de criminosos, o que levou ao novo adiamento. A demolição só foi retomada em 2025. Segundo o documento da Seop, uma nova data chegou a ser marcada para fevereiro, mas a ação foi novamente adiada. Já em março, na véspera da operação, a secretaria foi informada de que não deveria participar da ação, apesar de já ter mobilizado equipes e equipamentos. Ainda assim, a demolição acabou sendo realizada posteriormente.
Projeto social sem registro
Paralelamente, diligências da Polícia Militar indicaram indícios de que o suposto projeto social citado pelos parlamentares não tinha registro oficial. No local, agentes chegaram a encontrar faixas com nomes de políticos ligados às supostas iniciativas. A reportagem tenta contato com os citados.



