Um corretor de imóveis está sob investigação por supostamente aplicar uma série de golpes em contratos de locação na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Proprietários e inquilinos afirmam ter sido enganados por André Luiz Ferreira, que era responsável pela administração dos imóveis. O caso veio à tona após quase 30 meses de contrato, quando o motorista de táxi Marcelo Ornellas de Andrade e sua esposa, proprietários de um apartamento na Barra da Tijuca, descobriram irregularidades na administração da locação.
Como funcionava o esquema
Segundo as vítimas, André Luiz Ferreira intermediava o aluguel e também gerenciava as finanças do contrato. Marcelo conta que os primeiros sinais de problema surgiram com cobranças extras de condomínio. Ele decidiu assumir os custos para não repassá-los aos inquilinos, mas depois descobriu que os locatários também haviam pago as mesmas taxas. O maior prejuízo, no entanto, foi relacionado à garantia locatícia. O contrato previa um título de capitalização de R$ 66 mil, mas, quando o contrato terminou, os locatários — um casal de russos — descobriram que a aplicação vinculada à garantia era de apenas R$ 16 mil. As vítimas afirmam que o valor foi resgatado pelo corretor sem autorização.
“Ele nos apresentou certificado no valor de 66 mil, com timbre, carta assinada… no fundo aquele documento continha valor 66 mil. Era documento falso, porque a aplicação foi apenas de 16 mil reais”, afirma Marcelo. Além do valor da garantia, o proprietário diz que o corretor também deixou de repassar o último aluguel recebido dos inquilinos.
Impacto na vida das vítimas
A russa Olga Vladimirovna Khabarkova afirma que o dinheiro investido na garantia foi pago logo após a chegada da família ao Brasil. Ela conta que a perda financeira comprometeu o tratamento de saúde da filha. “Nós estamos muito tristes, porque eu preciso desse dinheiro para o tratamento da minha filha”, relata. As vítimas são representadas pela advogada Kátia Mello, que informa que André Luiz Ferreira tem mais de 15 processos em diferentes estados relacionados a casos de apropriação indébita.
Outros clientes também relatam prejuízos. O médico Luiz Sousa alugou um apartamento administrado pelo corretor e só descobriu o problema quando a proprietária do imóvel entrou em contato, informando que não recebia aluguel nem condomínio havia três meses, apesar de os pagamentos estarem sendo feitos regularmente. Após contatar a seguradora, Luiz descobriu que não existia título de capitalização nem apólice vinculada ao contrato. “Aí eu liguei para a seguradora e realmente não existia nada no nome do meu filho, nada naquela matrícula, não tinha apólice nenhuma. E aí tive certeza, né?”, relata. O prejuízo nesse caso é de quase R$ 38 mil.
Investigação e alerta
O delegado Alan Luxardo afirma que há pelo menos 17 registros de ocorrência relacionados ao corretor no estado do Rio de Janeiro. Os casos apresentam o mesmo padrão de atuação. “Esse histórico volumoso de crimes da mesma natureza praticados da mesma forma, meio e modo, demonstram que ele é um reiterado estelionatário”, afirmou. O delegado alerta para a importância de conferir informações e documentos antes de fechar negócios. “A gente tem que sempre desconfiar, checar informação. Nesse caso específico há um problema que o Creci dele ainda estava ativo.”
As vítimas também questionam a atuação do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-RJ). Marcelo afirma que consultou o cadastro profissional de André Luiz antes de fechar negócio e encontrou a inscrição ativa, o que transmitiu segurança. “Para nossa surpresa, foi constatado que ele tem diversas reclamações e o conselho regional de corretores imobiliários mantém esse elemento com seu cadastro e matrícula ativos”, afirma. Em nota, o Creci-RJ informou que existe apenas um processo administrativo contra o corretor em tramitação na esfera federal. O conselho afirma que, enquanto não houver decisão final do processo, não pode afastá-lo da atividade profissional. O presidente do Creci-RJ, João Eduardo Leal Corrêa, informou que uma audiência de conciliação foi marcada para o dia 25 de junho. Caso não haja acordo, o conselho dará prosseguimento à apuração dos fatos.
A reportagem tentou localizar André Luiz Ferreira em dois endereços citados na investigação, mas ele não foi encontrado. Também não houve retorno aos contatos telefônicos realizados. Enquanto aguardam o andamento das investigações, Olga e a família se preparam para deixar o Brasil sem saber se conseguirão recuperar o dinheiro perdido. “Espero que a justiça seja feita para que outras pessoas estrangeiras e brasileiras não passem pela mesma situação”, disse.



