Adolescente baleado em festa morre após um ano de luta em MG

O adolescente Antônio Augusto Fonseca, de 18 anos, morreu no dia 9 de julho de 2026, em decorrência de uma pneumonia, após passar mais de um ano tetraplégico em consequência de um disparo de arma de fogo durante uma festa de cavalgada em São Gotardo, no Alto Paranaíba, em dezembro de 2024. A informação foi confirmada pela mãe do jovem, Stefane Gabriela de Oliveira, ao g1 na segunda-feira (13).

O disparo e as consequências

Na noite de 28 de dezembro de 2024, Antônio foi atingido por uma bala disparada para o alto pelo então patrão, Sebastião Camargos de Oliveira, de 29 anos. O projétil atravessou a medula e perfurou um dos pulmões do adolescente. Ele sobreviveu, mas ficou tetraplégico. Após cerca de cinco meses internado, Antônio retornou para casa dependente de cuidados permanentes. O jovem passou por longos períodos de reabilitação, sofreu um AVC, perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo e conviveu com graves sequelas respiratórias. Segundo Stefane, o pulmão do filho ficou comprometido de forma irreversível. "O médico foi muito sincero. Disse que não era para o Antônio estar vivo", relembrou ela em entrevista concedida meses após o disparo.

A luta pela vida e a morte

Na última semana, a luta de Antônio chegou ao fim. O adolescente morreu em decorrência de uma pneumonia e foi sepultado no dia 10 de julho. Desde então, a mãe disse que tenta lidar com a ausência do filho e com um sentimento de culpa. "Seguindo com muita dor e sofrimento. Com a certeza que ele está nos braços do Pai, mas a dor é inexplicável. A saudade de ouvir ele me chamando e o sentimento de chegar e não ver ele. A irmãzinha dele também está muito sentida." Nos dias que antecederam a morte, Stefane percebeu mudanças na rotina de Antônio: ele passou a dormir mais do que o habitual e perdeu o apetite. "Ele não deu febre, não demonstrou nada. Ele simplesmente passou a dormir muito e não queria comer. Só bebia leite." Mesmo com a explicação médica, a mãe relatou que ainda convive com a sensação de que poderia ter feito algo diferente. "Eu fiquei com a consciência muito pesada, porque a gente, mãe, cansa. Quando acontece algo assim, eu penso que ele morreu por minha causa, que eu passei essa gripe para ele", lamentou.

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Dependência total e o impacto na família

Antônio voltou para casa com limitações que mudaram completamente a rotina da família. Ele passou a depender de cuidados permanentes da mãe, que deixou o trabalho como professora para se dedicar ao filho. Ela conta que passou um ano e quatro meses dormindo no chão do quarto para permanecer ao lado dele durante as noites. Apenas três meses antes da morte do adolescente, conseguiu voltar a dormir em uma cama. "Estou depressiva. Peso 60 quilos e me sentindo muito culpada. Com o tempo, todo mundo foi se afastando e nós vivíamos sozinhos. Eu não podia sair de casa. Meu cabelo caiu todo. Assim como eu", relembrou. Apesar das limitações, a mãe diz que Antônio nunca deixou de ser lembrado pelo jeito carismático e pela paixão pelos cavalos. "Os cavalos eram a paixão dele. Todo mundo gostava dele."

As últimas horas

As últimas horas do adolescente permanecem vivas na memória da mãe. Segundo Stefane, ela monitorava constantemente os sinais vitais do filho em casa. Quando a saturação de oxigênio começou a cair, acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ela afirma, porém, que o oxigênio demorou a ser administrado. "Eu pedi por mais de 20 minutos para colocarem o oxigênio. A saturação dele foi só diminuindo." Os socorristas iniciaram as manobras de reanimação, mas Antônio não resistiu. Hoje, a mãe tenta encontrar sentido para uma dor que começou na noite do disparo e se aprofundou a cada internação. "O que mais dói é chegar em casa e não ouvir ele me chamando."

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O indiciamento do patrão

De acordo com a Polícia Civil, Sebastião Camargos de Oliveira foi indiciado no fim de janeiro de 2025 por tentativa de homicídio qualificado, porte ilegal de arma de fogo, disparo de arma de fogo e embriaguez ao volante. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou Sebastião pelos mesmos crimes e pediu que a Justiça convertesse a prisão temporária do acusado em prisão preventiva. O mandado de prisão temporária, com prazo de 30 dias, foi cumprido no dia 3 de janeiro. No dia 31 do mesmo mês, a 2ª Vara Cível, Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de São Gotardo acolheu o pedido da Promotoria e converteu a prisão do réu em preventiva. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp), Sebastião esteve sob custódia no Complexo Penitenciário Nossa Senhora do Carmo, em Carmo do Paranaíba, entre 3 de janeiro e 15 de fevereiro de 2025. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) informou que Sebastião obteve um habeas corpus em fevereiro, tendo a prisão revogada, mediante o cumprimento de medidas cautelares: comparecimento a todos os atos do processo; comparecimento periódico em juízo; proibição de se aproximar da vítima ou testemunhas; e proibição de ausentar-se da comarca sem autorização judicial.

Reações e defesa

Na época dos fatos, o vereador Roberto Carlos, pai de Sebastião, afirmou que os dois eram como irmãos e que a família estava desolada. "Eu quero pedir desculpa a todos pelo acidente e esclarecer que nada foi intencional. O meu filho é uma pessoa do coração bom e está sofrendo como o Antonio, ele é o tipo de pessoa que não machuca um passarinho. Os dois são como dois irmãos, eles gostam muito um do outro, foi um acidente. Nossa família está desolada, a melhora do Antonio também é uma melhora para nós." O advogado de defesa de Sebastião, Fernando Rabelo Rodrigues, informou por meio de nota que Sebastião estava compadecido e consternado com a situação de seu melhor amigo Antônio, além de muito arrependido. A nota completa diz: "Sebastião Camargos de Oliveira, compadecido e consternado com a situação de seu melhor amigo Antônio, além de muito arrependido, esclarece que realizou depósitos tão logo ocorreram os fatos e está envidando todos os esforços para reparar o dano e minorar o sofrimento, inclusive tentando entabular acordo. De qualquer forma, é incontroverso entre Ministério Público, Juíza criminal e defesa que foi uma fatalidade e que o resultado jamais foi pretendido, tendo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais permitido que Sebastião Camargos de Oliveira, o Neto, responda ao processo em liberdade, consignando expressamente ao conceder-lhe a ordem de habeas corpus que ele e Antônio 'são pessoas bem amigas'. Sebastião Camargos de Oliveira se mantém à disposição da advogada da família de Antônio e das autoridades para, com dignidade, assumir a sua responsabilidade."