A pesquisadora Neuza Frazatti, de 76 anos, gerente de projetos de inovação do Instituto Butantan, lidera desde 2009 o desenvolvimento de uma vacina contra a dengue. O processo foi concluído em novembro, quando a Anvisa concedeu o registro definitivo ao imunizante. A vacina, produzida integralmente no Brasil, tem como principal vantagem ser de dose única, o que facilita a adesão ao esquema vacinal.
O Brasil enfrenta uma grave epidemia de dengue. Em 2025, foram estimados 1,6 milhão de infecções e 1.688 mortes. No ano anterior, os casos chegaram a 6,6 milhões. Entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, ocorreram mais de 235 mil internações, com custo direto de R$ 137 milhões. Em uma década, as hospitalizações custaram R$ 1,15 bilhão ao sistema de saúde, segundo estudo da The Lancet.
Além dos custos diretos, há impacto econômico. Um estudo da Fiemg estimou perdas de R$ 20,3 bilhões em 2024, considerando dengue, zika e chikungunya. A vacina do Butantan deve começar a ser aplicada em 2026, primeiro para idosos e depois para outras faixas etárias, exclusivamente pelo SUS.
Neuza Frazatti iniciou sua carreira no Butantan em 1978, como estagiária não remunerada. Formada em biologia e doutora em biotecnologia pela USP, participou do desenvolvimento da vacina contra influenza e criou a primeira vacina antirrábica em culturas celulares sem insumos animais, aprovada em 2008. Ela enfrentou preconceito por ser mulher e por inovar, mas foi reconhecida com prêmios como o Women in Life Sciences, em 2021.
A vacina contra a dengue foi possível graças a uma parceria com o NIH dos EUA, que forneceu cepas atenuadas do vírus. O Butantan projeta disponibilizar mais de 30 milhões de doses até meados de 2026, com produção em larga escala viabilizada por parceria com a chinesa WuXi Biologics. A vacina cobre os quatro sorotipos da dengue.



