Lazareto de Ribeirão Preto: hospital de isolamento e cemitério próprio
Lazareto de Ribeirão Preto: hospital de isolamento e cemitério

No final do século 19, Ribeirão Preto (SP) contava com um hospital destinado ao isolamento de pessoas com doenças contagiosas, equipado até com um cemitério próprio, em uma época em que epidemias ameaçavam constantemente a população. Conhecido como 'Lazareto', o local se tornou um símbolo das políticas sanitárias adotadas durante os surtos que atingiram a cidade e outros municípios da região, como São Simão (SP). Esta reportagem integra a série 'Histórias Escondidas', uma produção especial da EPTV, afiliada da TV Globo, para celebrar os 170 anos de Ribeirão Preto, comemorados em 19 de junho. Curiosidades, personagens marcantes e fatos pouco conhecidos ajudam a entender a trajetória de uma das cidades mais importantes do estado de São Paulo.

A criação do hospital

Em 1875, uma epidemia de varíola levou as autoridades de Ribeirão Preto a improvisar sistemas para separar os doentes do restante da população. A medida fazia parte do movimento higienista, política que se espalhava pelo Brasil com o objetivo de combater epidemias por meio de ações sanitárias, limpeza urbana e campanhas de vacinação. Dentro dessa nova política, pessoas infectadas eram afastadas dos centros urbanos para evitar a propagação de doenças. Foi nesse contexto que, em 1897, Ribeirão Preto inaugurou o Lazareto.

O nome faz referência a Lázaro, personagem bíblico tradicionalmente associado à lepra, doença hoje conhecida como hanseníase. O hospital ficava na região do bairro Ipiranga, próximo de onde atualmente está localizada a RP Mobi - a empresa de mobilidade de Ribeirão Preto - e possuía um cemitério ao lado, para enterrar as vítimas das doenças. Para o local eram encaminhados pacientes considerados graves ou que apresentavam doenças transmissíveis. Na prática, porém, os hospitais de isolamento da época tinham poucas condições de tratamento. Até o final do século 19, essas instituições não tinham como principal função a cura, mas sim impedir o contato dos doentes com o restante da população.

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Epidemia de febre amarela

Em 1903, a região de Ribeirão Preto enfrentou uma das mais graves crises sanitárias de sua história com a chegada da febre amarela. De acordo com o artigo 'A febre amarela em Ribeirão Preto durante a virada do século XIX', do professor e médico Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, centenas de pessoas morreram e qualquer indivíduo que apresentasse sintomas da doença podia ser levado ao Lazareto para isolamento. A medida atingia inclusive viajantes que desembarcavam nas estações ferroviárias da cidade. Jornais da época mostram que, naquele ano, Ribeirão Preto registrou 810 casos da doença. Em São Simão, a epidemia teve efeitos ainda mais devastadores, atingindo e matando mais da metade da população.

Além do combate a epidemias, em diferentes períodos, pessoas pobres ou consideradas indesejadas pelas autoridades eram retiradas das ruas e encaminhadas para hospitais de isolamento. Documentos do Arquivo Histórico de Ribeirão Preto indicam que o Lazareto permaneceu em funcionamento pelo menos até 1918, durante a pandemia de gripe espanhola, responsável por milhares de mortes em todo o mundo. A política de segregação de pacientes com doenças contagiosas permaneceu presente em São Paulo por várias décadas e só começou a ser abandonada a partir dos anos 1960.

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