Férias no Brasil: direito garantido, descanso nem sempre
Férias no Brasil: direito garantido, descanso nem sempre

As malas estão prontas, a passagem foi comprada, a resposta automática de e-mail foi ativada. Mesmo assim, muitos brasileiros embarcam para as férias carregando uma bagagem invisível: notificações acumuladas, preocupação com o trabalho, medo de voltar a uma caixa de entrada lotada e a sensação de que estão deixando a equipe na mão. Descansar, hoje, parece exigir tanto esforço quanto trabalhar.

O paradoxo das férias no Brasil

Um conjunto de estudos recentes mostra que o problema já não é apenas conquistar o direito às férias, mas conseguir aproveitá-las de verdade. Embora a legislação brasileira garanta 30 dias de descanso remunerado, a maioria dos profissionais utiliza apenas parte desse período, permanece conectada ao trabalho e retorna antes de recuperar plenamente o desgaste acumulado. O resultado é um paradoxo: as férias continuam existindo, mas o descanso, nem sempre.

Brasileiro tira férias, mas não integralmente

Levantamento da Deel, plataforma global de gestão de folha de pagamento, aponta que apenas 33% dos brasileiros utilizam integralmente os 30 dias de férias previstos em lei. Na prática, os trabalhadores usufruem 72% do benefício, com mediana de 20 dias efetivamente desfrutados ao longo do ano. O estudo revela ainda uma característica curiosa do comportamento brasileiro: mesmo sem aproveitar todo o período disponível, 62% dos profissionais tiram pelo menos um bloco de 11 dias consecutivos ou mais, percentual superior ao observado em países como Suécia (55%) e Dinamarca (51%). O dado sugere que muitos trabalhadores preferem concentrar o descanso em um único período mais longo, em vez de distribuí-lo ao longo do ano.

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Dificuldade de se desligar

A quantidade de dias disponíveis explica apenas parte da história. Especialistas em gestão de pessoas apontam que fatores culturais e organizacionais dificultam o descanso efetivo. Entre eles estão o excesso de trabalho antes das férias, o receio de sobrecarregar colegas, a pressão por resultados, a dificuldade para se desconectar completamente e a expectativa de encontrar uma demanda ainda maior no retorno. Na prática, sair de férias deixou de significar abandonar temporariamente o trabalho; em muitos casos, significa apenas trabalhar à distância — ou continuar pensando nele. Esse comportamento ganhou força com a consolidação do trabalho híbrido e das ferramentas de comunicação instantânea, que reduziram as fronteiras entre vida profissional e pessoal. Se antes o escritório ficava para trás quando a porta era fechada, hoje ele cabe no bolso.

Férias fracionadas: Brasil ainda é exceção

“Em muitos países há maior flexibilidade para fracionar as férias em períodos curtos, como poucos dias ou até algumas horas”, afirma Michele Cascardo, diretora de Desenvolvimento de Negócios para a América Latina da Deel. “O estudo mostra que pedidos de meio período, por exemplo, são bem mais comuns em mercados como França, Reino Unido e Alemanha. Isso reflete modelos de trabalho em que pausas curtas e frequentes são mais aceitas. No Brasil, esse comportamento ainda é raro”, diz Michele.

Descanso virou questão de saúde

A dificuldade para aproveitar as férias dialoga com outras transformações no mercado de trabalho. Levantamentos da Gallup mostram que profissionais que contam com apoio da liderança apresentam níveis significativamente maiores de engajamento e bem-estar. Ao mesmo tempo, dados da Previdência Social registraram recorde de afastamentos por transtornos mentais, evidenciando que o desgaste emocional passou a ocupar lugar central nas discussões sobre trabalho. A atualização da NR-1, que passou a exigir das empresas maior atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, reforça essa mudança de perspectiva. Nesse contexto, as férias deixam de representar apenas um direito previsto em lei e passam a desempenhar um papel importante na recuperação física e psicológica dos profissionais. Não por acaso, outros estudos recentes mostram que um número crescente de trabalhadores estaria disposto até mesmo a abrir mão de promoções caso elas comprometessem seu bem-estar, sinalizando que descanso e qualidade de vida deixaram de ocupar um papel secundário nas decisões de carreira.

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O paradoxo brasileiro

Existe outro aspecto interessante revelado pelo levantamento da Deel. Embora utilize apenas parte do período de férias a que tem direito, o brasileiro está entre os profissionais que mais concentram o descanso em um único bloco prolongado. Esse comportamento contrasta com países onde é mais comum dividir as férias em vários períodos menores distribuídos ao longo do ano. A diferença sugere que, no Brasil, as férias continuam sendo encaradas como um momento de recuperação após longos períodos de trabalho intenso, enquanto em outras culturas pequenas pausas frequentes fazem parte da rotina profissional. É uma diferença de comportamento que ajuda a explicar por que descansar continua sendo um desafio mesmo para quem tem férias garantidas por lei.

Desafio já não é conquistar o descanso

O direito às férias está consolidado na legislação brasileira. O desafio, agora, parece ser outro. As empresas investem cada vez mais em programas de saúde mental, bem-estar e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ainda assim, muitos trabalhadores continuam encontrando dificuldade para transformar esse direito em descanso efetivo. Os estudos sugerem que tirar férias deixou de ser suficiente. Descansar depende também da cultura da organização, da capacidade de desconexão e da segurança de que ninguém será penalizado por se afastar temporariamente do trabalho. Porque, no fim das contas, férias são um direito. Mas descansar de verdade, cada vez mais, vem se tornando um desafio.