Fibromialgia em 'Quem Ama Cuida': diagnóstico demora e tratamento muda
Fibromialgia em novela: diagnóstico demora e tratamento

A trajetória da personagem Elisa (Isabela Garcia) na novela Quem Ama Cuida retrata uma realidade enfrentada por muitos pacientes com fibromialgia: anos de dores intensas, cansaço constante e várias consultas médicas até o diagnóstico ser confirmado. A personagem, mãe da protagonista Adriana (Letícia Colin), deve começar a apresentar melhora nos próximos capítulos após o diagnóstico da doença.

Por que o diagnóstico demora?

Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a demora é comum porque a fibromialgia não possui exame laboratorial, marcador biológico ou exame de imagem que confirme a doença. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente e na avaliação dos sintomas.

O reumatologista José Eduardo Martinez, presidente da SBR, explica que os sintomas são subjetivos e dependem do relato do paciente. Como os sintomas podem se confundir com outras condições, muitas pessoas passam por uma investigação extensa antes de receberem o diagnóstico correto. O diagnóstico é feito a partir da identificação de sintomas compatíveis e da exclusão de outras doenças que possam explicar o quadro clínico.

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Prevalência e sintomas

A fibromialgia afeta cerca de 2% a 3% da população brasileira, o que representa aproximadamente 7 milhões de pessoas, de acordo com a SBR. A dor generalizada é a principal característica. Diferentemente de dores provocadas por lesões ou inflamações, o problema está na forma como o organismo percebe a dor. Além dela, são frequentes: fadiga persistente; sono não reparador; alterações cognitivas, como dificuldade de concentração; sensação de formigamento nas mãos e nos pés; ansiedade e depressão associadas. A doença provoca impacto importante na qualidade de vida e pode comprometer atividades do dia a dia, especialmente quando coexistem ansiedade, depressão ou outras doenças reumatológicas.

O que desencadeia crises e a internação é comum?

Segundo Martinez, o principal desencadeador das crises é o estresse emocional. Infecções virais e alterações de temperatura também podem favorecer o agravamento dos sintomas, mas o componente emocional é apontado como o fator mais importante.

Apesar de a personagem da novela enfrentar uma internação, especialistas ressaltam que isso é raro. O reumatologista Eduardo dos Santos Paiva afirma que a hospitalização pode ocorrer, mas não costuma trazer benefícios para a maioria dos pacientes. O objetivo é que a pessoa aprenda estratégias de automanejo das crises com sua equipe médica, reduzindo a necessidade de procurar serviços de urgência. Paiva acrescenta que muitos profissionais de pronto-socorro não estão familiarizados com o manejo da fibromialgia, o que reforça a importância da educação do paciente e do acompanhamento contínuo.

Novas diretrizes priorizam tratamento não farmacológico

As novas Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fibromialgia, publicadas pela SBR, atualizam recomendações de 2010 e reforçam que os tratamentos não farmacológicos passam a ocupar posição central no controle da doença. O tratamento deve ser interdisciplinar e centrado no paciente. Entre as estratégias com maior nível de evidência científica estão: educação do paciente e da família; exercícios físicos, especialmente a combinação de atividade aeróbica e fortalecimento muscular; terapias psicológicas, como Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT); acupuntura; técnicas de neuromodulação para controle da dor; práticas complementares, como Tai Chi Chuan e exergames.

As diretrizes ressaltam que equipes formadas por médicos, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos, nutricionistas e outros profissionais conseguem melhores resultados na qualidade de vida dos pacientes do que o cuidado exclusivamente médico.

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Quando medicamentos são necessários?

Segundo o documento, os medicamentos têm como objetivo aliviar sintomas e melhorar a funcionalidade, mas não controlam sozinhos toda a doença. Entre os fármacos com melhor evidência científica estão: amitriptilina, especialmente para dor e distúrbios do sono; duloxetina, para controle da dor; e pregabalina, que apresenta benefícios na dor, no sono e na qualidade de vida. As diretrizes não recomendam o uso rotineiro de opioides, anti-inflamatórios, canabinoides, benzodiazepínicos e terapias intravenosas devido à falta de eficácia comprovada e ao risco de efeitos adversos.

Martinez ressalta que o tratamento deve ser individualizado, considerando sintomas e doenças associadas. “Nas doenças crônicas, a gente não fala em cura. A gente fala em controle e a gente busca o que a gente chama de remissão, o que realmente é mais difícil na fibromialgia. O que a gente procura é melhorar a qualidade de vida e a capacidade funcional”, afirma.

Conscientização e preconceito

Para Eduardo dos Santos Paiva, a representação da fibromialgia em uma novela pode contribuir para aumentar a conscientização da população e favorecer o diagnóstico precoce. É importante mostrar que o tratamento vai além dos medicamentos e inclui educação em saúde, atividade física e terapia cognitivo-comportamental.

Martinez reforça que muitos pacientes enfrentam preconceito porque a dor não é visível e não existe exame que comprove a doença. Quando os sintomas não são reconhecidos, o sofrimento emocional pode aumentar e agravar o quadro clínico. Apesar dos desafios, o presidente da SBR afirma que a maioria dos pacientes consegue ter boa qualidade de vida quando segue o tratamento adequadamente, especialmente com adesão às medidas não farmacológicas e prática regular de exercícios físicos.