Caranguejo preso em garrafa plástica sobrevive dois meses no mar
Caranguejo preso em garrafa plástica sobrevive dois meses

Um caranguejo-nadador (Charybdis hellerii) foi encontrado vivo dentro de uma garrafa plástica no oceano, após permanecer preso por cerca de dois meses. O caso, registrado em julho de 2022 por pesquisadores da Universidade de Hiroshima, Japão, foi publicado em abril de 2026 na revista científica Ecosphere. O animal, já adulto e saudável, estava aprisionado em uma garrafa de vinho Shaoxing de polietileno de alta densidade (PEAD), com abertura de apenas 24 mm de diâmetro, enquanto sua carapaça media 88,23 mm de largura.

Descoberta durante expedição em Okinawa

O achado ocorreu a cerca de 500 metros da ilha de Sesoko, em Okinawa, durante um levantamento de peixes juvenis. A garrafa, fabricada em novembro de 2021 na província chinesa de Zhejiang, flutuava na superfície. Ao redor, nadavam várias espécies de peixes juvenis. Ao recolher o recipiente com um puçá, os cientistas notaram o caranguejo vivo em seu interior. Para retirá-lo, foi necessário cortar a garrafa, pois o animal era maior que a abertura.

Sobrevivência alimentando-se de peixes e algas

Para entender como o crustáceo sobreviveu, a equipe analisou o conteúdo estomacal com técnicas de metabarcoding de DNA. Foram encontrados restos de peixes-gatilho (Canthidermis maculata) e sargentos-do-Indo-Pacífico (Abudefduf vaigiensis), além de algas verdes (Ulva compressa) e marrons (Myrionema strangulans). Segundo os autores, o caranguejo capturava peixes juvenis que entravam na garrafa e complementava a dieta com algas que cresciam no interior. Os pesquisadores compararam o peso do animal com o de populações naturais e concluíram que ele apresentava condição corporal acima do esperado, indicando ausência de desnutrição. Além disso, exames mostraram que o caranguejo era uma fêmea sexualmente madura, com ovócitos em desenvolvimento.

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Cálculo do tempo de aprisionamento

Os cientistas estimaram o período de confinamento usando duas abordagens. Primeiro, com base na taxa de crescimento da espécie, calcularam que o caranguejo levou de um a dois meses para crescer do tamanho que permitia entrar pela abertura até as dimensões observadas. Segundo, mediram 159 cracas da espécie Lepas anserifera aderidas à garrafa; a maior tinha 20,7 mm. Aplicando a taxa de crescimento das cracas à temperatura média da água (28,1 °C), obtiveram cerca de 62 dias. As duas estimativas coincidiram, indicando aproximadamente dois meses de aprisionamento.

Reconstrução da sequência de eventos

Com base nas evidências, os pesquisadores propuseram que o caranguejo entrou na garrafa ainda na fase larval ou juvenil, o recipiente passou a flutuar, algas cresceram internamente, peixes juvenis usaram a garrafa como abrigo, e o caranguejo se alimentou deles e das algas. Ao crescer, ficou permanentemente preso. Embora não seja possível determinar o local exato do descarte, a garrafa provavelmente foi transportada pelas correntes marinhas na região de Okinawa.

Impacto ecológico e comparação literária

Os autores destacam que, apesar da sobrevivência, o caranguejo perdeu a chance de retornar ao ambiente natural, encontrar parceiros e se reproduzir, reduzindo seu sucesso reprodutivo a quase zero. O estudo alerta que esse tipo de impacto é pouco reconhecido por afetar organismos menores, enquanto grandes vertebrados marinhos recebem mais atenção. Garrafas de PEAD podem permanecer intactas por décadas, aumentando a probabilidade de episódios semelhantes. Outro caso com a mesma espécie já foi registrado no Japão. Na introdução do estudo, os autores comparam o fenômeno ao conto “A Salamandra”, de Masuji Ibuse, em que uma salamandra cresce demais dentro de sua toca e fica aprisionada — agora, uma versão real causada por lixo humano.

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