O Instituto Butantan declarou que manterá seu compromisso com a ciência e a saúde pública após a decisão do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de interromper temporariamente a campanha de vacinação contra a dengue para reavaliação da estratégia vacinal. Em nota oficial, o instituto informou que continuará apoiando integralmente os órgãos federais, fornecendo todas as informações disponíveis sobre o imunizante, realizando novos estudos e acompanhando rigorosamente o trabalho de farmacovigilância dos vacinados.
Suspensão preventiva da vacinação
Nesta segunda-feira (8), o Ministério da Saúde anunciou a suspensão da imunização contra a dengue com a vacina desenvolvida pelo Butantan. De acordo com o governo federal, a medida foi adotada após o registro de duas mortes suspeitas e outros casos de reações adversas graves. Segundo o instituto, a suspensão temporária foi uma ação preventiva, após a identificação de alguns casos de reações adversas, sendo três deles com sinais de gravidade, entre aproximadamente 500 mil pessoas vacinadas. O Butantan ressaltou que ainda não é possível afirmar se os casos estão diretamente relacionados à vacinação.
Vacinação restrita a profissionais de saúde
A vacinação estava sendo aplicada exclusivamente em profissionais de saúde. O Butantan afirmou que a medida visa garantir a segurança da população nas próximas etapas da campanha. O instituto também declarou que continuará aprofundando as informações sobre o uso da vacina e que, caso sua segurança seja confirmada, a vacinação poderá ser retomada. Na nota, o Butantan reafirmou o compromisso de entregar produtos seguros e eficazes para o enfrentamento de problemas de saúde pública por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Anúncio do governo e dados estatísticos
O anúncio da suspensão foi feito às 14h41 (horário de Brasília) em uma coletiva de imprensa com a Anvisa e o diretor do Instituto Butantan. Segundo o Ministério da Saúde, até o momento foram aplicadas 500 mil doses, e nesse universo foram registrados 42 casos de reações severas possivelmente ligadas à vacina, incluindo duas mortes que seguem como suspeitas. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou: “Nós tivemos três casos graves, desses dois óbitos, sem, até esse momento, nas investigações já feitas pelos sistemas municipais, de vigilância estadual, escutando os especialistas, ter dados suficientes para estabelecer uma causalidade da vacina com a ocorrência”.
Segundo a análise do Ministério da Saúde, a taxa de reação adversa corresponde a 0,7% do total de vacinados, e os casos com sinais de alarme que levaram à suspensão representam 0,008% das pessoas imunizadas. Desenvolvida pelo Instituto Butantan, a vacina é a primeira do mundo aplicada em dose única e a primeira totalmente brasileira. A imunização começou no início deste ano com foco nos profissionais de saúde.
Orientações para vacinados e próximos passos
Estados e municípios suspenderão a aplicação enquanto os casos de eventos graves e mortes são investigados. O governo informou que acionará os estados para reforçar a busca por possíveis efeitos adversos. Quem recebeu doses nos últimos 21 dias deve fazer acompanhamento e ficar atento a reações como febre, dor abdominal e vômitos. A pasta reforçou que a medida é temporária e de segurança, que todas as mortes são suspeitas e que há confiança nos estudos que comprovaram a eficácia e segurança da vacina. O ministro Padilha afirmou: “Queria reforçar aqui que o Ministério da Saúde tem toda a confiança na capacidade institucional, científica do Instituto Butantan, de fazer essa investigação, de aprofundar esses estudos. Isso foi apresentado no Comitê de Farmacovigilância Nacional, que foi feito hoje de manhã cedo, e o comitê recomendou de forma consensual essa estratégia de descontinuidade”.
Casos graves considerados 'inesperados'
Durante a coletiva, o Ministério da Saúde informou que a decisão foi baseada em notificações de farmacovigilância. Em 500 mil aplicações, foram 42 efeitos adversos graves. Segundo a análise, os dados mostraram reações que não apareciam nas pesquisas anteriores que levaram à aprovação da vacina. Antes de ser aprovada, a pesquisa aplicou a vacina em 16 mil pessoas acompanhadas por cinco anos, comprovando eficácia e segurança. O estudo teve repercussão internacional e foi publicado pela revista Nature.
No período de janeiro até 30 de maio de 2026, foram registradas 3.703 notificações de eventos inesperados com sintomas semelhantes aos da dengue, equivalentes a 0,7% do total de vacinados. Entre esses registros, 42 casos apresentaram sinais de alarme, como dor abdominal, vômitos persistentes e sangramentos. Esses episódios corresponderam a 0,008% do total de vacinados e foram classificados como eventos muito raros, embora não previstos nos estudos clínicos nem descritos na bula. Entre os quadros, três foram considerados graves e, dentre eles, duas mortes.
Detalhamento dos casos graves
O primeiro caso grave envolve uma mulher de 39 anos que apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após a vacinação. Ela evoluiu para dengue grave com choque, foi internada em UTI, mas se recuperou. Os casos de óbito são: uma mulher de 48 anos que desenvolveu sintomas de dengue grave 19 dias após receber a vacina, com comprometimento neurológico (meningoencefalite) e veio a óbito; e um homem de 58 anos que apresentou febre cinco dias após a vacinação e evoluiu rapidamente para dengue grave com choque refratário, também falecendo.
Próximos passos da investigação
Como próximas etapas, a Anvisa informou que notificou o Instituto Butantan e convocará um comitê de especialistas para conduzir a investigação epidemiológica dos casos. O Butantan será responsável por analisar as informações disponíveis e apresentar novos dados às autoridades. O trabalho de investigação será conduzido de forma conjunta pela Anvisa, pelo Ministério da Saúde (por meio do PNI) e pelo Instituto Butantan.



