A advogada e auditora fiscal Juliana Prates, que atua no Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), transformou a dor da perda do irmão em uma luta contra as casas de apostas online. Em entrevista ao g1, ela relatou que decidiu expor sua história nas redes sociais para alertar outras famílias sobre os perigos do vício em jogos. "Saí do luto para a luta, porque não quero que ninguém passe por isso", afirmou.
O drama pessoal
O irmão de Juliana, o também auditor Otacílio Prates, começou a apostar em 2023. Ao longo de quase dois anos, ele acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão. Em dezembro do ano passado, ele tirou a própria vida. A ludopatia, transtorno caracterizado pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar, é uma dependência comportamental reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com alto impacto na saúde mental.
Ativismo nas redes
Após a morte do irmão, Juliana passou a usar as redes sociais para alertar outras famílias sobre os perigos das bets. Segundo ela, diversas pessoas entraram em contato para contar histórias semelhantes. "Muitas famílias vieram falar comigo, se identificaram. Percebi que é um problema de saúde pública silencioso", contou. Além disso, a auditora passou a receber ofertas para divulgar casas de apostas. "Eu falo todos os dias sobre conscientização e recebo propostas de casas de apostas todos os dias", afirmou.
Publicidade desenfreada
Para Juliana, um dos maiores problemas é a divulgação desenfreada das bets. Em Salvador, as casas de apostas são promovidas em eventos gratuitos que reúnem crianças e adolescentes, como o Carnaval e a Lavagem do Bonfim. "A publicidade é um gatilho muito pesado para quem está passando por esse problema", disse. De acordo com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), a propaganda de apostas deve ser protegida de crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade, e deve incluir mensagens de alerta como "jogue com responsabilidade".
Ação popular contra o governo
A profissional moveu uma ação popular contra o Governo da Bahia para frear as publicidades das casas de apostas nos festejos de São João, que neste ano coincide com a Copa do Mundo. "O que a gente gostaria hoje é que não houvesse publicidade de apostas em festas nas quais a gente sabe que há a presença de crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade", explicou em entrevista à TV Bahia. A ação foi parcialmente atendida pela Justiça, e a decisão da juíza Juliana de Castro Madeira, da 6ª Vara da Fazenda Pública de Salvador, foi publicada em 26 de maio. Ela adotou um meio-termo, considerando que muitas cidades dependem de patrocinadores para realizar as festas.
Regras determinadas pela Justiça
- Horário limitado das propagandas, que só podem ser veiculadas depois das 22h;
- São proibidas propagandas de bets em eventos infantis, como quadrilhas mirins;
- É proibida a abordagem direta: distribuir panfletos, dar brindes, abordar pessoas na rua ou usar QR code para apostar;
- Artistas não podem divulgar as casas de apostas durante os shows;
- O aviso é obrigatório: sempre que a marca de uma bet aparecer no telão, o evento deve mostrar uma mensagem alertando que o jogo pode causar dependência.
Segundo a decisão, o governo do estado teria 48 horas para aplicar as medidas. Em caso de descumprimento, a multa é de R$ 50 mil por dia, podendo chegar a até R$ 1,5 milhão. O g1 entrou em contato com o Tribunal de Justiça da Bahia para saber se o governo recorreu e se alguma multa foi aplicada, e aguarda retorno.



