O mercado de anúncios irregulares de medicamentos no Brasil atingiu um novo patamar em 2025, superando pela primeira vez o volume de propagandas de bets, segundo levantamento do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). O principal motor desse crescimento foi a venda do Mounjaro, medicamento para diabetes e perda de peso, que gerou uma enxurrada de anúncios sem aprovação regulatória.
Crescimento exponencial
De acordo com dados do Conar, as denúncias de publicidade irregular de medicamentos aumentaram 340% em 2025 em comparação com o ano anterior. Em contrapartida, as propagandas de bets, que dominavam o cenário de infrações publicitárias em 2024, caíram 15% após medidas mais rígidas do governo e da autorregulamentação.
O Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, passou a ser amplamente anunciado em redes sociais, sites e até mesmo em outdoors, muitas vezes com promessas milagrosas de emagrecimento rápido, sem mencionar os riscos ou a necessidade de prescrição médica. A Anvisa já havia alertado sobre a venda irregular do medicamento, mas a demanda crescente impulsionou o mercado paralelo.
Impacto na saúde pública
Especialistas em saúde pública alertam para os perigos desses anúncios. “A automedicação com Mounjaro pode causar efeitos colaterais graves, como pancreatite, problemas renais e distúrbios gastrointestinais”, afirma a endocrinologista Carla Souza, da Sociedade Brasileira de Diabetes. “Além disso, a ausência de acompanhamento médico pode mascarar condições subjacentes.”
O Conar intensificou a fiscalização e já removeu mais de 2.000 anúncios irregulares de medicamentos em 2025, mas a entidade reconhece que o combate é desafiador devido à rapidez com que novos anúncios surgem online.
Medidas das autoridades
A Anvisa, em conjunto com a Polícia Federal, realizou operações para apreender lotes do medicamento vendidos ilegalmente. Em uma dessas ações, em São Paulo, foram confiscados mais de 10 mil frascos de Mounjaro falsificados ou sem registro.
O Ministério da Saúde também lançou uma campanha de conscientização sobre os riscos da compra de medicamentos sem prescrição, com foco em redes sociais e plataformas de vídeo.
O papel das plataformas digitais
As plataformas de tecnologia, como Google e Meta, têm sido pressionadas a agir contra anúncios ilegais. Em resposta, o Google anunciou a remoção de mais de 500 anúncios de Mounjaro em janeiro de 2026, mas a empresa admite que muitos ainda escapam dos filtros automáticos.
Para o advogado especialista em direito digital, Ricardo Lopes, a responsabilidade das plataformas é central: “Elas precisam de sistemas mais robustos de verificação, especialmente para anúncios de produtos regulados. A autorregulamentação não é suficiente.”
Comparação com as bets
Em 2024, as bets lideravam as infrações publicitárias, com anúncios que muitas vezes não respeitavam as regras de jogo responsável. No entanto, a partir de 2025, a entrada em vigor de novas regras para publicidade de apostas, aliada a multas mais pesadas, reduziu significativamente o número de irregularidades.
Por outro lado, o mercado de medicamentos, especialmente aqueles ligados à estética e ao emagrecimento, explodiu. A pressão social por um corpo idealizado, combinada com a facilidade de compra online, criou um ambiente fértil para anúncios enganosos.
O que esperar para 2026
O Conar prevê que, sem uma ação coordenada entre governo, plataformas e sociedade, o número de anúncios irregulares de medicamentos continuará crescendo. A entidade defende a criação de um cadastro nacional de anunciantes de produtos farmacêuticos e a imposição de multas mais severas.
Enquanto isso, consumidores devem redobrar a atenção: nunca compre medicamentos sem receita médica e desconfie de promessas de resultados rápidos e milagrosos. A saúde não pode ser colocada em risco por uma propaganda enganosa.



