Uberlândia em 2002: a Copa do penta em uma cidade sem internet e celular
Uberlândia em 2002: a Copa do penta sem internet e celular

Enquanto a Seleção Brasileira caminhava rumo ao pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002, Uberlândia vivia uma realidade muito diferente da atual. A internet ainda engatinhava, os celulares eram artigos para poucos e as passagens de ônibus eram pagas com passes feitos de plástico. O g1 fez uma pesquisa entre os meses de maio e julho de 2002 no Cedoc da TV Integração e no extinto jornal Correio de Uberlândia, disponível no Arquivo Público Municipal. O objetivo é reconstruir o cotidiano dos moradores na última vez em que o Brasil levantou a taça do mundial. Entre hábitos, preços, tecnologia, transporte, esporte e desafios urbanos, a cidade revela um retrato que hoje parece distante.

Da desconfiança à festa do pentacampeonato

Entre celulares simples, internet discada, ônibus pagos com fichas e ruas tomadas por buzinaços, Uberlândia acompanhou a conquista do pentacampeonato em um mundo muito diferente do atual. Nem todo mundo acreditava que a Seleção Brasileira conquistaria o título. Dezessete dias antes do início da Copa, comerciantes reclamavam das vendas tímidas de produtos temáticos. Camisetas com o slogan 'Rumo ao Penta' custavam entre R$ 5 e R$ 8, mas a procura era considerada baixa. Um serigrafista ouvido pelo jornal atribuiu a situação à desconfiança dos torcedores em relação à equipe comandada por Luiz Felipe Scolari.

A percepção mudou conforme o Brasil avançava no torneio. Com as primeiras vitórias, os torcedores passaram a acreditar no título. Muitos já apostavam em uma final contra a Alemanha. A cada triunfo, as ruas eram tomadas por buzinaços que chegavam a durar até 40 minutos. Bares ficavam lotados, escolas adaptavam a rotina para acompanhar os jogos e milhares de pessoas saíam para comemorar. No dia da final, a expectativa era de que os torcedores ocupassem as ruas da cidade. Mais de 600 policiais militares e agentes de trânsito foram mobilizados para acompanhar as comemorações.

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Bares abriam às 5h30 da manhã

Por causa do fuso horário entre Brasil, Coreia do Sul e Japão, os jogos aconteciam nas primeiras horas do dia. Na estreia da Seleção, estabelecimentos abriram antes das 6h para receber os torcedores. Uma das referências da época era a Choperia Zero Grau, que reunia cerca de 500 pessoas diante de cinco televisores de 29 polegadas. O comércio e os bancos só começavam a funcionar ao meio-dia nos dias de jogos do Brasil. Muitas crianças também acompanhavam as partidas dentro das escolas.

Ônibus a R$ 1,25 e mototáxi em expansão

Muito antes dos aplicativos de transporte, os moradores dependiam principalmente dos ônibus, táxis e mototáxis. A bandeirada do táxi custava R$ 2,69 e uma corrida média saía entre R$ 8 e R$ 10. Já os mototáxis, que ainda eram vistos com desconfiança e enfrentavam discussões sobre regulamentação, cobravam entre R$ 3 e R$ 5 por viagem. As empresas responsáveis pelo transporte coletivo eram a Transcol e a Viação Triângulo. Em maio daquele ano, a tarifa passou para R$ 1,25. Cerca de 200 mil passageiros utilizavam diariamente o sistema. Na época, a cidade se preparava para trocar os passes plásticos por bilhetes impressos. A implantação dos cartões magnéticos acumulava quase um ano de atraso.

Quanto custava viver em Uberlândia em 2002?

Os anúncios publicados pelo jornal ajudam a entender o custo de vida da época:

  • Coca-Cola de 2 litros: R$ 1,39
  • Leite tipo C: R$ 0,90
  • Gás de cozinha: R$ 25
  • Linguiça a granel: R$ 1,99 o quilo
  • Gasolina: R$ 1,60 o litro
  • Apartamento novo no Jardim Finotti com dois quartos, sala, cozinha, área de serviço, sacada e vaga na garagem: R$ 40 mil
  • Celular Nokia 5125: R$ 379

O salário mínimo nacional era de R$ 200. Um motorista de ônibus recebia R$ 595,85. Já um cobrador ganhava R$ 357. Um professor das séries iniciais tinha remuneração de aproximadamente R$ 212.

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A Algar anunciava, em São Paulo, a fusão das empresas de telefonia fixa, celular, TV a cabo, Internet e data center. Surgia a criação da 'nova' CTBC. A empresa passou a fazer chamadas a longa distância. Um interurbano em um domingo, de fixo para fixo, saia por cinco centavos. Entre os jovens com celular, que não eram muitos, na modalidade pré-pago, ficou famoso o 'me dá um toquinho', ou seja, em três segundo você avisava ao amigo que precisava falar com ele mas não tinha crédito.

Quando a internet ainda era novidade

Em 2002, o Brasil tinha cerca de 13 milhões de usuários de internet. As novas regras para registro de domínios começavam a ser implantadas e o acesso à rede ainda estava longe de ser algo comum nos lares brasileiros. Quem queria ouvir música recorria ao walkman. Já para gravar programas de televisão ou os jogos da Copa, o videocassete era indispensável. Em Uberlândia, um dos destaques era o site Charges.com, criado pelo cartunista Maurício Ricardo. O portal acumulava milhões de acessos e já se destacava nacionalmente. Na época, o chargista comentou sobre os desafios de produzir conteúdo para a internet: "Eu não arrisco nenhuma previsão. Todas as tentativas de definir para onde esse movimento vai erraram."

Problemas que atravessaram as décadas

Alguns desafios enfrentados pela cidade há 24 anos continuam atuais. Uberlândia registrava mais de 3 mil casos confirmados de dengue. A cidade produzia cerca de 350 toneladas de lixo por dia e perdia aproximadamente 31% da água tratada em vazamentos e ligações clandestinas. Moradores reclamavam da poluição visual na região central e da falta de agentes de fiscalização de trânsito. A acessibilidade também era motivo de preocupação. Estimava-se a necessidade de cerca de mil rampas para atender pessoas com deficiência. Greves de professores das redes municipal e estadual afetavam o calendário escolar. Na segurança pública, os assaltos a ônibus chamavam atenção. Apenas nos primeiros seis meses do ano foram registrados 163 casos.

O basquete vivia sua era de ouro

Se o Uberlândia Esporte Clube enfrentava dificuldades e acabou rebaixado para o Módulo 2 do Campeonato Mineiro, o basquete vivia um dos períodos mais marcantes da história da cidade. A chamada 'Unit Mania' lotava o Uberlândia Tênis Clube (UTC), com mais de 3 mil torcedores por partida. Virava o 'caldeirão' da Inferno Verde, torcida organizada do futebol que migrou para o basquete. O time chegou à final do Campeonato Brasileiro e ganhou até álbum de figurinhas. A relevância da equipe era tanta que a Seleção Brasileira de Basquete utilizou o UTC para parte da preparação para o Mundial de Indianápolis, nos Estados Unidos.

Outros destaques

A cidade ainda recebeu competições de judô, futsal e antes do MMA o lutador que se destacava na cena era o Cyborg no box tailandês. O capoeirista Wellington Ramos, ou Pelezinho, representava Uberlândia e o Brasil na Europa nos Jogos Europeus Abadá Capoeira. A cidade recebeu neste ano o 6o Open de Futsal Adulto, no clube AABB.

Moda, beleza e costumes

As manicures cobravam cerca de R$ 7 pelos tradicionais serviços de pé e mão. Para quem queria entrar no clima da Copa, era possível decorar as unhas com as cores da bandeira brasileira por cerca de R$ 16. Bandanas faziam sucesso entre os jovens, enquanto a drenagem linfática se consolidava como uma das técnicas estéticas mais procuradas. Sem redes sociais, as fotos das festas e eventos eram vistas em portais locais como o Fala X na internet ou em álbuns impressos levados de um lado para o outro.

Uma cidade em transformação

Em 2002, o prefeito de Uberlândia era Zaire Rezende. Os resultados dos vestibulares ainda eram publicados nos jornais impressos. O Teatro Rondon Pacheco seguia em funcionamento e a cidade realizava a primeira edição da 'Parada do Orgulho Gay'. Os condomínios horizontais começavam a ganhar espaço e quem planejava viagens internacionais utilizava traveller checks para levar dinheiro ao exterior. Foi neste ano também que o Ministério do Trabalho permitiu que menores de 16 anos tivessem direito a ter carteira de trabalho assinada em Uberlândia. Poucos imaginavam que aquela seria a última vez que o Brasil conquistaria uma Copa do Mundo em um longo período e que transformações tomariam conta da cidade nos anos seguintes.

Carro popular

Em 2002, carros populares custavam entre R$ 11 e R$ 25 mil: apenas 3 de cada 10 saiam das concessionárias como modelos básicos, os outros sete saíam com acessórios típicos de modelos de luxo como ar condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos, segundo registros da época.

Agro

Cafeicultores do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba esperavam enviar 35 mil sacas de café para o Japão na safra 2002/2003, 20% maior do que o enviado na safra anterior. O líder na lista de exportação era o café cereja descascado.

Saúde

Depois de 8 anos sob a gestão da Fundação Maçônica Manoel dos Santos as cinco UAIs da cidade passaram a ser administradas pela Prefeitura por meio da Secretaria Municipal de Saúde. UAIs Pampulha, Planalto e Tibery começavam a usar a telemedicina nos atendimentos.

Shows

Os bares tocavam sertanejo, pagode, covers de bandas como Pink Floyd e Pearl Jam. A tendência das raves começava a se consolidar entre os jovens. Em 2002 a cidade recebeu dois grandes shows no período pesquisado, ambos na Acrópole: Skank e Oswaldo Montenegro.

O Brasil de 2002

Alguns fatos ajudam a lembrar como era o país naquele ano: O reality show Big Brother Brasil estreou na televisão; A novela "O Clone" liderava a audiência no horário nobre; O Congresso Nacional discutia medidas para encerrar o funcionamento dos bingos; O dólar chegou a R$ 2,55, a maior cotação do ano até então; A criação de avestruzes vivia um período de forte expansão no país.

Preocupação dos pais

Educadores e pais estavam preocupados com o impacto da exposição de crianças a produções como 'Power Rangers', 'Pokémon', 'Digimón' e 'Dragon Ball Z'. A preocupação era de que os filmes e animem despertassem agressividade nos pequenos.