Reforma da Serraria do Ibirapuera é aprovada pelo Conpresp
Reforma da Serraria do Ibirapuera aprovada

Projeto de reforma da Serraria do Ibirapuera é aprovado pelo Conpresp

O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) aprovou, nesta segunda-feira (8), o projeto de reforma da antiga Serraria do Parque Ibirapuera, localizada na Zona Sul da capital paulista. A iniciativa, apresentada pela concessionária Urbia, prevê a transformação do espaço em um centro comercial, o que gerou intenso debate entre conselheiros, usuários e especialistas. A votação terminou em 5 a 3 após meses de discussões.

Detalhes do projeto aprovado

De acordo com o projeto, mais da metade das laterais do galpão serão fechadas com painéis de vidro, e um mezanino será construído em quase toda a extensão do local, onde serão instalados equipamentos de academia. A Urbia ainda aguarda autorização da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente para iniciar as obras e informou que não possui parceria comercial definida para a área até o momento.

O parecer jurídico que embasou a decisão do Conpresp sustenta que não há limitações objetivas para a ocupação da Serraria na resolução de tombamento do parque. As diretrizes do Plano de Intervenções de 2020, que estabelecem ocupação máxima de 50% no térreo e 30% no pavimento superior, foram consideradas meramente orientativas e passíveis de revisão. Como precedente, a Urbia citou um projeto da prefeitura para transformar a Serraria em um museu dedicado ao escultor Frans Kajcberg, aprovado com índice de ocupação superior e validado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2010, embora nunca tenha sido executado.

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Manifestações favoráveis e contrárias

A área técnica da Secretaria Municipal de Cultura manifestou-se favoravelmente ao projeto, considerando sem relevância jurídica os argumentos contrários. A Associação dos Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados (Appit) havia alertado para o risco de dano irreversível ao patrimônio, tentando barrar a reforma. O presidente do Conpresp, Wilson Levy, em seu voto favorável, afirmou que a proposta "não satisfaz a integralidade dos usuários do Ibirapuera, mas não desqualifica a edificação nem seu entorno, sem maiores interferências nas atividades ali realizadas".

Após sugestões de entidades de defesa do patrimônio e da conselheira Danielle Santana, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Levy incluiu no texto a exigência de que a Urbia apresente, em agosto, um planejamento de restauro do parque para o semestre seguinte. O objetivo é garantir que o conselho tenha uma visão global dos planos da concessionária e evitar descaracterização do Ibirapuera.

Posicionamento da Urbia

O diretor da Urbia, Samuel Lloyd, defendeu que a atividade econômica é fundamental para a manutenção e restauro do patrimônio. Em audiência pública na Câmara Municipal, em 19 de maio, ele citou o modelo de gestão da Sala São Paulo como referência. "A gente tem bilheteria para espetáculos, serviços de alimentos e bebidas, aluguel de espaço para eventos e exposição de marcas patrocinadoras. Isso não torna o espaço menos nobre", argumentou.

Lloyd destacou que o projeto passou por alterações significativas para atender às exigências dos órgãos de patrimônio (Conpresp, Condephaat e Iphan), como a retirada de mesas e de um quiosque de alimentação, além da substituição de paredes de alvenaria por revestimento em madeira nos vestiários. O mezanino será autoportante, construído com tecnologia steel frame, 100% reversível, permitindo o retorno ao desenho original no futuro. "Estamos falando quase como um Lego; não precisamos fazer qualquer tipo de mutilação na estrutura", afirmou. Ele também rejeitou a comparação com um shopping center e disse que a intervenção trará "mais utilidade" à área.

Características históricas da Serraria

A Serraria é uma estrutura industrial remanescente da década de 1930, anterior à criação do parque, originalmente usada para conservação de bondes e marcenaria. Em 1992, o paisagista Roberto Burle Marx requalificou o espaço, integrando o galpão a uma praça com espelhos d'água, fontes e vegetação nativa, em frente ao Viveiro Manequinho Lopes.

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A arquiteta Cássia Mariano, especialista em parques urbanos e professora da Universidade Mackenzie, considera a Serraria um elemento central de um dos poucos espaços públicos projetados por Burle Marx em São Paulo. Para ela, o fechamento com vidros e a construção da laje interna comprometeriam a continuidade visual e a integração do conjunto, além de reduzir a visibilidade de aspectos históricos, como as tesouras de madeira do telhado e uma grua de içamento quase centenária. Ela criticou o excesso de ativações comerciais no parque, que estariam tomando espaço de contemplação e convivência com a natureza. "Precisamos em algum local dentro do Ibirapuera poder simplesmente olhar o verde, ter paz, sossego e respirar. É para isso que os parques públicos existem", declarou durante a audiência na Câmara.

Parecer técnico do DPH

Em janeiro, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura emitiu parecer técnico contrário ao projeto, apontando possível descaracterização da obra original e prejuízo ao paisagismo. O órgão considerou que a ocupação proposta — 57% no térreo e 89% no pavimento superior — viola as diretrizes de ocupação máxima de 50% e 30% previstas no Plano Diretor do parque, comprometendo a fluidez visual e limitando o uso público do espaço.

O parecer também criticou a falta de um plano de restauro paisagístico fiel ao projeto original, citando Burle Marx: "Não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana, sem a qual a própria civilização perderia sua razão de ser". Apesar da negativa técnica, a diretora do DPH, Marília Barbour, encaminhou a proposta ao Conpresp, argumentando que o plano de intervenções da concessão não deve ser visto como imutável, podendo ser revisto com justificativa.

Contexto da concessão

O Parque Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). O contrato de 35 anos deu à Urbia, pertencente à Construcap, o direito de explorar comercialmente a área. A locação de espaços para alimentação é uma das principais fontes de receita da concessionária, e nos últimos anos quiosques, lanchonetes e restaurantes se multiplicaram pelo parque. Segundo Lloyd, as ações comerciais sustentam a manutenção e preservação dos bens tombados. A empresa prevê R$ 350 milhões em investimentos no Ibirapuera ao longo da concessão.

Outros parques da capital, como o Villa-Lobos e o Água Branca, na Zona Oeste, passaram por processos semelhantes após concessão, com aumento de ações comerciais patrocinadas por grandes marcas e eventos.