Nas últimas décadas, São Paulo consolidou uma prática que merece reflexão: o fechamento noturno de parques urbanos e, em alguns casos, até de praças. A justificativa é conhecida: proteger esses espaços diante da violência, do vandalismo, das ocupações irregulares e da insuficiência de políticas sociais para enfrentar a população em situação de rua.
Sob esse aspecto, trata-se de uma medida compreensível. Em uma metrópole marcada por profundas desigualdades, manter parques abertos durante toda a noite exige condições de segurança e manutenção que muitas vezes o poder público não consegue garantir.
Fechamento como derrota do ideal de cidade aberta
Entretanto, o fechamento também representa uma derrota do ideal de cidade aberta. O espaço público deixa de ser plenamente público quando seu acesso passa a depender de horários rígidos. A lógica da proteção acaba substituindo a lógica da convivência.
São Paulo apresenta situações bastante distintas. Enquanto parques como o Ibirapuera, Villa-Lobos e até mesmo a Praça do Pôr do Sol possuem controle de acesso, outros espaços permanecem abertos, como a Praça das Corujas e diversos parques lineares, demonstrando que diferentes modelos de gestão podem coexistir conforme as características de cada território.
Expansão das concessões e eventos privados
Essa discussão tornou-se ainda mais relevante com a expansão das concessões de parques públicos. Muitos deles passaram a sediar grandes eventos, festivais e atividades privadas que frequentemente restringem o acesso da população, geram impactos ambientais, elevam os níveis de ruído, aumentam o tráfego e pressionam ecossistemas urbanos originalmente destinados ao lazer, à contemplação e à prestação de serviços ambientais. Em diversos casos, parques concebidos como áreas verdes passaram a ser administrados como verdadeiros espaços de entretenimento, sem que sua capacidade de suporte ambiental seja adequadamente considerada.
Fenômeno semelhante pode ser observado em outros espaços públicos. O Vale do Anhangabaú passou a receber grandes eventos cercados e com controle de acesso, alimentando o debate sobre os limites da privatização da gestão de áreas públicas. A própria concessão do espaço vem sendo objeto de questionamentos judiciais e institucionais.
Avenida Paulista como exemplo inspirador
Por outro lado, a Avenida Paulista oferece um exemplo inspirador. Aos domingos e feriados, a principal avenida da cidade é fechada para os automóveis e aberta integralmente às pessoas. Milhares de cidadãos ocupam livremente o espaço para caminhar, pedalar, encontrar amigos, praticar esportes, assistir a apresentações culturais ou simplesmente usufruir da cidade. A experiência demonstra que, quando há planejamento, segurança, programação e gestão adequada, o espaço público pode ser amplamente utilizado sem perder seu caráter democrático.
Exemplos sul-americanos de acessibilidade
Diversas cidades da América do Sul também demonstram que parques urbanos podem permanecer amplamente acessíveis. Buenos Aires, Montevidéu e Santiago preservam grandes áreas verdes abertas e intensamente utilizadas pela população, apoiadas em políticas permanentes de manutenção, segurança, fiscalização e valorização do espaço público como patrimônio coletivo.
O exemplo do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, reforça essa visão. Com seus extensos jardins, áreas esportivas e culturais integradas à orla, constitui um dos maiores parques urbanos do país e demonstra que espaços públicos de grande escala podem permanecer acessíveis e vivos quando acompanhados por gestão eficiente e presença constante do poder público.
Desafio: conciliar segurança, preservação e inclusão
O verdadeiro desafio, portanto, não é simplesmente abrir ou fechar parques e praças. É construir um modelo de gestão capaz de conciliar segurança, preservação ambiental, inclusão social e acesso democrático. Espaços públicos existem para promover convivência, saúde, cultura e qualidade de vida. Quanto mais restrições ao seu uso, maior é o sinal de que a cidade ainda não conseguiu enfrentar as causas estruturais de seus problemas urbanos.
Uma cidade verdadeiramente sustentável não é aquela que protege seus parques fechando seus portões, mas aquela que cria condições para que eles permaneçam vivos, seguros, ambientalmente equilibrados e acessíveis a todos. Afinal, a qualidade de uma democracia também pode ser medida pela forma como ela cuida e compartilha seus espaços públicos.



