O Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento de água para a Grande São Paulo, fechou setembro com apenas 28% de sua capacidade útil, o pior índice para o mês desde 2015. O número está abaixo do limite de 30%, que tecnicamente caracteriza uma faixa de restrição operacional, situação que não ocorria há uma década. O alerta foi emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em seu relatório mensal.
Segundo o Cemaden, os índices de chuva e vazão no período ficaram bem abaixo da média histórica. A precipitação acumulada foi de apenas 58% da média, enquanto a vazão afluente atingiu cerca de 41% do esperado. Embora a estação chuvosa esteja prevista para começar, as mudanças climáticas podem tornar as chuvas insuficientes para recuperar os reservatórios. O engenheiro e consultor de saneamento Antonio Eduardo Giansante, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que, a cada ano, o volume mínimo durante as estiagens no Cantareira é cada vez menor.
As projeções do Cemaden indicam que, mesmo em um cenário favorável com chuvas próximas à média histórica, os reservatórios devem permanecer em níveis críticos, e o Cantareira deve entrar 2024 em alerta. Nos últimos 12 meses, o sistema recebeu 1.358 milímetros de chuva, 10% abaixo da média. Se o verão for ainda mais seco, pode haver agravamento da situação.
A Sabesp, companhia de saneamento responsável, adotou medidas emergenciais desde 27 de agosto, reduzindo a pressão da água durante a noite para preservar os mananciais. A faixa de redução, inicialmente de 8 horas, foi ampliada para 10 horas a partir de 22 de setembro, das 19h às 5h. A medida visa diminuir vazamentos e desperdícios, mas afeta principalmente as regiões periféricas, onde moradores muitas vezes não têm caixas d'água e residem em áreas altas, dificultando o abastecimento após a retomada do bombeamento.
O geógrafo Wagner Costa Ribeiro, professor da USP, critica a medida, afirmando que ela prejudica as camadas mais baixas da população. Ele também observa que as mudanças climáticas estão desregulando o ciclo hidrológico, substituindo a garoa paulistana por tempestades intensas e períodos de estiagem, o que não resolve o abastecimento e ainda causa enchentes. O geógrafo Luiz de Campos Júnior, do projeto Rios e Ruas, reforça que o problema não é localizado, citando as enchentes no Rio Grande do Sul como exemplo de como as alterações climáticas afetam todo o país.



