Amor que nasceu em protesto: casal de Sorocaba está junto há 45 anos
Amor que nasceu em protesto: casal de Sorocaba está junto há 45 anos

Um casal de Sorocaba, no interior de São Paulo, começou a namorar após um protesto durante a ditadura militar. Em uma noite marcada por um ato de resistência ao autoritarismo, milhares de jovens ocuparam as ruas da cidade para defender a liberdade de beijar em público. A "Noite do Beijo", como ficou conhecida a manifestação realizada em 1981, formou diversos casais, que permanecem juntos até os dias atuais. Marcia Mah, de 59 anos, e Alvaro Mestre Ramos, de 68, são exemplos de que o amor pode surgir em meio ao caos de um protesto. Eles começaram a namorar há 45 anos, durante o ato realizado na Praça Coronel Fernando Prestes.

O protesto que uniu o casal

O protesto aconteceu em 7 de fevereiro de 1981, durante o período da ditadura militar. À época, a sociedade enfrentava forte autoritarismo e se deparou com uma medida ainda mais limitante em Sorocaba: a proibição de beijos em locais públicos. A medida foi uma ordem do então juiz de direito Manuel Moralles, que classificava o gesto como um "ato obsceno". A resposta dos jovens foi uma manifestação que reuniu mais de 5 mil pessoas em defesa do ato de se beijar como um direito básico.

Relação que resistiu às transformações

Mesmo sem casamento oficial no papel, Marcia, que é cantora e ativista ambiental, e Alvaro, historiador e violeiro, formam uma parceria que resistiu às transformações da cidade e do país. Marcia já era cantora e Alvaro um militante de esquerda, ligado ao movimento estudantil secundarista, quando começaram a namorar. "Eu estava no primeiro ano do colegial, no Padilha (Escola Estadual 'Antônio Padilha'), e o Alvaro estava começando a faculdade. A gente se conhecia pelos eventos culturais da cidade e estava na 'Noite do Beijo', mas começou nosso namoro mesmo um tempo depois", disse Marcia.

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Manifestação, diversão e celebração da juventude

Como já se conheciam, os dois tiveram a oportunidade de "ficar" pela primeira vez em meio ao protesto. Segundo Marcia, aquela noite foi uma mistura de manifestação, diversão e celebração da juventude. "Naquele período, a sociedade brasileira era muito censurada, mas já estava tendo 'ares de liberdade', já estava surgindo a 'Diretas Já', a volta dos exilados, enfim. E aí o juiz resolveu fazer um decreto proibindo o beijo [em praça pública]. Então, a gente, como juventude, se reuniu e fez a manifestação", comentou Alvaro. Marcia ainda pontua que o propósito da garotada era apenas protestar, mas tinha a intuição de que o ato teria um impacto na sociedade, visando a romper com a repressão daquela época. Afinal, "quando se é jovem, o momento é tudo, a história vem depois", destacou a cantora.

Depois de "ficar" pela primeira vez, o casal começou a namorar e não se desgrudou mais. Hoje, eles moram juntos, têm animais de estimação e compartilham a rotina do dia a dia cultivando as memórias construídas ao longo do tempo, com a música sendo um dos principais pilares do relacionamento. "O lugar das mulheres é onde elas quiserem estar. Então, nós, homens, temos que amá-las e respeitá-las", afirmou Alvaro.

A fórmula para um longo relacionamento

A histórica "Noite do Beijo" tornou-se muito mais do que apenas um protesto para Marcia e Alvaro. Foi um dos maiores símbolos da relação deles, que se desenvolveu de forma humana, com viagens e amizades baseadas na contracultura, valorizando a livre expressão e a justiça social, lutando por transformações na história do país. Para Marcia, a "fórmula" para ter um relacionamento saudável e duradouro como o deles é a paciência e a admiração pelo parceiro. "É procurar sempre incentivar o parceiro no que ele tem de melhor, nos seus sonhos, no seu potencial, e um ajudar o outro, ter uma convivência harmoniosa." A cantora ainda acrescenta que vai celebrar o Dia dos Namorados deste ano como sempre celebrou com o companheiro: "Brindando à vida com música e vinho".

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Amor e música

Marcia é cantora e Alvaro violeiro, portanto, ao longo dos 40 anos de história, os dois já compuseram diversas músicas juntos. Uma delas é "Catira Triste", com letra de Marcia Mah, produção de Álvaro Mestre e arranjo de Ricardo Anastácio. A música pertence ao álbum "Lalaia", que o casal também apresentou em Portugal. Entre os versos estão frases como: "Em meu coração flechado, abrem as chagas de uma paixão, a sina do cantador, de sempre amar seja como for"; "Em meu martírio venerável São Sebastião, me ensina a suportar a dor e a lutar por esse amor, livrai de mim, livrai de mim esses meus ais, na doçura dos seus beijos, encontrar a minha paz, sobre o teu colo moreno".

A 'Noite do Beijo'

Os manifestantes organizaram uma passeata pacífica, que começou com cerca de 300 pessoas e terminou com milhares. Na noite do ato, a Praça Coronel Fernando Prestes foi tomada por cartazes, música e poesia. O sentimento coletivo ecoava em um coro: "Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão". A manifestação ia além da proibição do juiz e se tornava um grito por liberdade. A resposta do regime, no entanto, foi dura. Policiais à paisana monitoravam o ato e, ao final, a perseguição se intensificou. Quatro décadas depois, a "Noite do Beijo" segue lembrada como um ato de coragem que, usando o afeto como forma de resistência, ajudou a expor as fissuras de uma ditadura em seus anos finais. Foi a prova de que, mesmo sob repressão, a luta por um direito simples — como o de beijar em público — podia carregar a força de uma revolução.