Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Pará (UFPA) e outras instituições detectou mercúrio em todas as amostras de penas de urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) analisadas. A pesquisa avaliou 38 aves capturadas na região do Aeroporto Internacional de Belém (PA), onde o manejo ocorre para evitar colisões com aeronaves. Os resultados preliminares, apresentados durante o evento Avistar 2026, revelam que 100% dos indivíduos apresentaram diferentes níveis de contaminação pelo metal, acendendo um alerta sobre a presença desse contaminante na Amazônia Oriental.
Descoberta inesperada
O achado foi um desdobramento de outras análises. Inicialmente, o estudo surgiu a partir da coleta de amostras sanguíneas e microbiológicas dos urubus, sem o objetivo primário de buscar o metal. "Por estarmos em uma área com intensa pressão humana, fez sentido realizarmos essa investigação, mas a princípio não sabíamos se iríamos ou o quanto iríamos encontrar desse contaminante", afirma o médico veterinário Nailson de Andrade Neri Júnior, um dos responsáveis pela pesquisa.
Bioindicadores ambientais
Por serem aves necrófagas, os urubus-de-cabeça-vermelha ocupam uma posição estratégica para o monitoramento ambiental. Eles consomem animais mortos de diferentes ambientes e acumulam contaminantes presentes na cadeia alimentar por meio da bioacumulação. As penas funcionam como um registro biológico da presença de mercúrio no organismo, permitindo avaliar a saúde da ave sem causar dano.
Impactos nas aves
O mercúrio é um elemento tóxico que pode permanecer por longos períodos no ambiente e nos seres vivos. Sua bioacumulação é altamente favorecida por ter poucas vias naturais de eliminação corporal. Nas aves, a exposição ao metal está associada à redução do sucesso reprodutivo, alterações neurológicas, comprometimento do sistema imunológico, danos hepáticos e problemas na gestação. Espécies em níveis mais altos da cadeia alimentar tendem a acumular maiores concentrações do contaminante.
Origem da contaminação
Embora os animais tenham sido capturados em Belém, ainda não é possível afirmar o local exato da contaminação, já que os urubus percorrem grandes distâncias em busca de alimento. A principal hipótese é que a exposição esteja relacionada ao garimpo ilegal de ouro, que utiliza mercúrio e contamina rios, peixes e outros organismos.
Riscos para humanos
O pesquisador alerta que o risco é real. Na Amazônia, a principal via de exposição humana ao mercúrio é o consumo de peixes contaminados com metilmercúrio, a forma mais tóxica. Comunidades dependentes da pesca podem apresentar níveis elevados do contaminante. Em 2022, pesquisa da Fiocruz identificou contaminação em peixes da Bacia do Rio Branco (RR), com foco em crianças e mulheres em idade fértil.
Próximos passos
O trabalho está em fases iniciais, mas a equipe planeja submeter o estudo completo para publicação científica ainda este ano. Os pesquisadores pretendem expandir as coletas para outros municípios da Amazônia, ajudando a identificar padrões de contaminação e a distribuição do mercúrio na região Norte do país.



