Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revelou a existência de cinco novas Áreas em Processos de Desertificação (APD) no estado. Com essa descoberta, o fenômeno atinge agora pelo menos 62 municípios potiguares, abrangendo cerca de 15% do território estadual, o equivalente a 8.359 km².
Historicamente, o Rio Grande do Norte reconhecia apenas uma área em processo de desertificação: o Núcleo do Seridó, também conhecido como Seridó Oriental, que compreendia seis municípios e uma extensão de 696 km². A nova pesquisa, no entanto, amplia significativamente esse cenário.
Novas áreas identificadas
As cinco novas APDs mapeadas são:
- APD Pau dos Ferros: 1.061 km²
- APD Rodolfo Fernandes: 680 km²
- APD Caraúbas: 1.500 km²
- APD Sertão Central: 2.580 km²
- APD Seridó Ocidental: 1.842 km²
Os dados são resultado de quase uma década de pesquisa e monitoramento dos geógrafos Anny Catarina Nobre de Souza e Sérgio Domiciano Gomes de Souza. O estudo investiga a ocorrência e a distribuição espacial da desertificação no estado, utilizando técnicas de sensoriamento remoto, análise geoespacial e trabalho de campo.
Descoberta amplia conhecimento sobre o fenômeno
Das seis APDs identificadas, apenas a do Seridó Oriental era previamente reconhecida pela literatura científica e por órgãos governamentais. "A principal contribuição do estudo é demonstrar, com base em evidências científicas, que a desertificação no Rio Grande do Norte é mais ampla do que se imaginava, ultrapassando os limites do tradicional Núcleo do Seridó e alcançando novas áreas do Oeste e da região central do estado", explicou Anny Catarina de Souza.
Além de identificar as novas áreas, a pesquisa atualizou a delimitação do Núcleo Seridó, que antes era baseada em limites político-administrativos. Agora, com critérios ambientais mais precisos, foi possível refinar a área onde o processo efetivamente ocorre.
Causas da desertificação
Segundo os pesquisadores, a desertificação no Rio Grande do Norte resulta da combinação de fatores ambientais e humanos. Entre os principais estão a semiaridez climática, atividades extrativistas como desmatamento, pecuária, agricultura e mineração sem manejo adequado, solos rasos e pedregosos, erosão, escassez hídrica e recorrência de secas.
"A interferência humana de forma desordenada e degradante sobre os recursos naturais é um acelerador desse processo, e em alguns territórios, a causa mais visível da degradação da terra", destacou Anny Catarina.
O monitoramento por satélite indica sinais de degradação ambiental persistentes há mais de 40 anos no estado, desde 1984. O processo de desertificação é gradual, cumulativo e dinâmico, remontando ao próprio processo de ocupação territorial dessas localidades desde os séculos passados.
Recuperação é possível, mas exige ação
Os especialistas afirmam que parte das terras em processo de desertificação pode ser recuperada, dependendo do grau de avanço e das intervenções realizadas. No entanto, a gravidade do problema reside na fragilidade ambiental da região, com restrições de solo e escassez hídrica, o que dificulta a regeneração natural.
"A irreversibilidade da desertificação está muito mais na capacidade sozinha da natureza de se regenerar, isto é, a resiliência natural dos solos, da vegetação e das condições climáticas diante do agravamento da degradação", explicou a pesquisadora.
Para mitigar o problema, os pesquisadores sugerem ações integradas de curto, médio e longo prazo, como recuperação de áreas degradadas, recomposição vegetal (recaatingamento), manejo sustentável dos solos, monitoramento contínuo, controle do desmatamento, assistência técnica aos produtores rurais e fortalecimento de tecnologias de convivência com o semiárido.
Estudo inédito subsidia políticas públicas
Os resultados da pesquisa, que está em fase de conclusão do Doutorado em Geografia pela UFRN, fornecem informações técnicas e científicas fundamentais para o planejamento ambiental e a gestão sustentável dos recursos naturais. O mapeamento dos níveis de suscetibilidade à desertificação é inédito em nível estadual e pode subsidiar a implementação da Lei Estadual de Combate à Desertificação (Lei nº 10.154/2017), com a criação do cadastro estadual das áreas em desertificação.
"O estudo permite localizar com maior precisão as áreas mais críticas em desertificação do estado de forma atualizada", concluiu Sérgio Domiciano.



